"O doce de arroz doce do Hotel Cataguases, que só se deve comer em transe de branda meditação. E, como Vinícius, de joelhos e pensando - no máximo - na mulher amada.

O MUNDO VEIO DEPOIS
Ronaldo Werneck

Fotos de Marília Valverde

Marília ValverdeDele quem me falou primeiro foi Mônica Botelho. Assim ao pé-do-ouvido, e com todo o zelo.  Findo o almoço infindo, disse do doce minha amiga – e com ar de mistério. Na boca – limão? canela? – um quê de epifania. Também, pudera. Nada se igualava. Nem o da Vovó Cota, o da Cacai, o da Lilila, o da Rosa, o de Dona Zeca, ou de quantas mães tivera. E aprendi pra sempre: o doce mais doce dos doces não é o doce de batata doce, mas o doce de arroz doce. O doce de arroz doce do Hotel Cataguases, que só se deve comer em transe de branda meditação. E, como Vinícius, de joelhos e pensando – no máximo! – na mulher amada.

Marília ValverdeDaí então, quem em Cataguases recebo, levo logo a almoçar no Hotel, se é que ali já não se encontre. Foi assim com Arnaldo Godoy, e André Andries, e Albertina Brasil, e João Jardim, e Carlos Alberto Mattos, e Maria Lúcia Godoy e Paulo Cezar Saraceni, e Maria Adelaide Amaral, e Neti Szpilman, e Elton Medeiros, e Roberto Moura, e Moacyr Luz, e Ulla-Riccardo, e Ana Paula-Pablo, e Marcelo Andrade, e Alcione Araújo, e quem mais vier. E foi com Alcione, meu mais novo amigo de infância, que cometi a frase incomensurável, apesar de comível na medida certa: “No princípio, era o arroz doce. O Hotel veio depois”.  Não há controvérsias, ou se as há, azar.  Nada mais mar, nada mais belo, que esse arroz doce naufragar. Nem mesmo todo o oceano: né mesmo, Alcione?

Marília Valverde“Inspiração é coisa que você provoca ou propicia: você se coloca num estado de abertura para dialogar com seu inconsciente e utilizar o material que aflora”. Quem me fala assim, inspirada pelo arroz doce, é Marina Colasanti. Estamos sentados na, vamos dizer, pérgola da piscina do Hotel Cataguases, e Marina veio para uma palestra no Centro Cultural Humberto Mauro, dentro do Projeto Tim/Estado de Minas - Grandes Escritores. Há muito não nos víamos, mas os olhos – de ardósia, não: um semitom verde-azul, pautado pela claridade – mantêm-se plácidos e contemplativos, ativados num átimo por um bravo solzinho de outono chegado a fim-de-tarde em Cataguases. Ela se lembra do Hotel e voltamos velozes aos anos 70.

Marília ValverdeJunto com Joaquim Branco, fui um dos organizadores do Festival Audiovisual de Cataguases em junho de 1970 e, no Rio, andei convidando deus-e-o-mundo pro júri. Vieram tantas celebridades que tivemos de colocá-las no palco do Cine Edgard. Claro: o que fazer com um júri composto por Nelsinho Motta, Luiz Carlos Maciel, Lúcio Alves, Affonso Ávila, Laís Correa de Araújo, Álvaro e Neide Sá, Moacy Cirne, Wlademir Dias-Pino, Mariozinho Rocha, Antônio Chrisóstomo, e mais e muito mais, e ainda por cima presidido pelo poeta Francisco Marcelo Cabral e tendo com presidente de honra sua majestade, Clementina de Jesus? Em lugar de “descê-los pra Cima” (nossa patrocinadora), resolvemos subir com a turma pro palco.

Marília ValverdeOs concorrentes também não faziam por menos: meu amigo Ronaldo Periassu e sua Equipe Mercado (vanguarda pura, que acabara de vencer o Festival da TV-Tupi), Carlos Imperial, Gutemberg Guarabira, Zé Rodrix e Luiz Carlos Sá (o trio Sá, Rodrix e Guarabira começou a ser formado aqui em Cataguases, numa roda de cerveja no velho Mocambo. Pode crer: eu tava lá, bicho!), Suely Costa, João Medeiros, Antônio Adolfo, Ruy Maurity, Rildo Hora, Marcus Vinícius, e Aristides Guimarães-José Carlos Capinam (os vencedores, para alegria de Capinam, que me confessou: finalmente poderia comprar a sonhada máquina elétrica para bater seus poemas), e até, imaginem, Gilberto Gil. O atual ministro mandara de Londres, onde estava exilado, a canção Zooilógico, que seria defendida por Gal Costa, depois por Jards Macalé e depois por ninguém, já que nenhum dos dois pôde vir. De Cataguases, Carlos Moura e Lião Condé, com o fantástico Tango Terrível; o Chevrolet´s go home, do Antônio Jaime; e Maria Alcina, melhor intérprete.

Foi então, exatos 34 anos atrás, que estive com o poeta Affonso Romano de SantAnna na velha sede do Jornal do Brasil, na Avenida Rio Branco. Já meu conhecido, o poeta trabalhava na área internacional e aceitou de imediato o convite pro júri. Mais ainda: pediu que eu convidasse também Marina Colasanti, do caderno B. Já em Cataguases, noite da abertura, estava eu a tomar meu banho, quando Affonso e Marina adentraram a casa da Dr. Sobral, perdidos na “cidade grande”. Enquanto o poeta, este, saía do banho de saturday night, o outro poeta e sua partner tomaram um uísque com papai Hisbelo, que era noite de festa. Levei-os depois ao Hotel, mas acho que não deu tempo pro arroz doce: o Festival nos chamava.

Estive pouco com Marina ao longo das últimas décadas. Algumas vezes em Ipanema, na casa dela e do poeta, geralmente levado por algum compromisso com Affonso, de quem me tornei amigo. Nunca mais falamos do Festival de 70.  Agora, assim que a reencontrei no hall do Hotel, a primeira coisa de que se lembrou foi daquela “cantora altíssima e fantástica”. Quem, Marina? Não é que era a nossa Maria Alcina? Comecei a duvidar de sua memória. Fantástica, sim; mas “altíssima”, a Alcina? Mas logo Marina entrou em detalhes que nem mesmo eu me recordava. Descreveu a sala da casa da Dr. Sobral como se lá estivéssemos ainda agora – e foi ela quem se lembrou do banho do poeta, este. E depois, romântica: “estávamos em início de namoro, início mesmo: nunca mais me esqueci de Cataguases. Nem Affonso”

E já do inconsciente o arroz doce aflora e Marina assume seu jeito Colasanti de ser: “dependendo do que faço, preciso de mais ou menos conexão com o inconsciente. Ao escrever um ensaio trabalho fundamentada, com a razão, e convoco menos o inconsciente. Mas se faço poesia ou ficção, preciso estabelecer esse diálogo. Se for trabalhar com contos de fada, então, é só esse diálogo. A razão tem que ser jogada fora. A razão tem que tomar férias lá longe e não me aborrecer, porque os contos de fada não podem ter interferência da razão. Suplico a mim mesma a abertura do inconsciente para que aflore aquilo conhecido como inspiração, ou o que seja. É uma descarga que você dá no imaginário e bota pra funcionar. E quando ele funciona, dá uma euforia danada, é muita adrenalina, Os contos de fada jogam uma adrenalina na minha alma, uma coisa, uma coisa, eu tenho que sair, respirar fundo”

Marina é agora entrevistada por Vera Maciel, pro “Cataguases”, e lá pelas tantas me cita, entre sorrisos: “Os contos de fada não têm fadas. Se você pega asMil e Uma Noites”, não há fadas. Há gênios, há entidades. O conto de fada tem que estar fora do tempo. Quer dizer, fora do tempo real, e   em localidade não existente, um lugar imaginário, no alto de um montanha, à beira de um rio. Você não está em Paris, ou em Cataguases. Isso pra dizer de duas cidades-irmãs, como dizia ainda há pouco o Ronaldo. Porque Cataguases é a Paris da Zona da Mata, ou alguém duvida?”. Dou um sorriso e de repente penso o que jamais ousaria dizer. Mas como não sou lá de dizer – só de acá escrever – então vem cá, Luísa, me exorcisa. Ou vá lá, Marina, me contamina. No princípio, era Cataguases. O mundo veio depois.

Ronaldo Werneck poeta e jornalista, autor de vários livros: dentre eles "minas em mim e o mar esse trem azul", poesia e "Cataguases é Cachoeira - 100 Anos de Humberto Mauro"editado pela Funarte durante o centenário de nascimento do cineasta, em 1997.Editou, junto com o poeta cataguasense Joaquim Branco, vários suplementos literários em Cataguases a partir dos anos 60. Morou no Rio por mais 30 anos. Atualmente vive em Cataguases onde promove uma série especial do suplemento ("Cataguarte") sobre os "rapazes da Revista Verde". rwerneck@acessa.com.br

 

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