A Vizinha conto de Raymundo Silveira

Sandra MoreiraEra sua vizinha há mais de cinco anos e ele a desejava ardentemente. Tinha trinta e cinco anos, um marido a quem parecia amar, um corpo durinho de adolescente, um eterno sorriso meigo no semblante e dois filhos cujos nascimentos, em vez de torná-la menos jovial, fizeram-na parecer mais deliciosa. Como um fruto saboroso que, quando amadurece, perde todo o travo característico da prematuração e se torna doce como o próprio mel. Os cabelos eram naturalmente aloirados, lisos e ela os trazia quase sempre enrodilhados e presos rente à nuca, configurando um pequenino e charmoso coque. Costumava se vestir com roupas bem talhadas, finas e semitransparentes, que se amoldavam com elegância deixando bem evidentes os contornos do seu corpo de sereia. Usava vestidos de decotes generosos, que deixavam entrever a base dos seios, permitindo se presumir como seriam quando nus. Os tecidos das roupas eram sedosos, finos, delicados e se ajustavam como luvas sobre aquele corpo escultural, salientando cada curva, cada reentrância, cada detalhe sensual. Pelas pernas se podia adivinhar como seriam as coxas, as nádegas e as ancas. Eram grossas, brancas e não precisavam ser tocadas para se lhes adivinhar a maciez.

O vizinho ficava fascinado quando a via. E louco de desejo dia e noite, pois aquela imagem não o largava um só instante. Fazia tudo para alcançar um mínimo de deferência. Um olhar que denotasse algum tipo de atração, qualquer cumplicidade escondida, um flerte inocente, um piscar de olhos malicioso. Porém, o máximo que obtinha era aquele sorriso faceiro que ela esbanjava indistintamente para todos, quer se tratasse de homens, mulheres, crianças ou idosos. Certa noite, numa festinha de aniversário, ele bebeu um pouco de vinho, ofereceu a ela outra taça e, para sua felicidade suprema, ela correspondeu ao brinde. E sorriu mais gentilmente para ele do que o habitual. Quis falar, mas não pôde. Aquilo o paralisara. O que talvez fosse um simples gesto de gratidão, ele interpretou, graças ao efeito do champanhe, como um incentivo ao galanteio. Durante a noite não dormiu. O desejo por aquela mulher se transformara em obsessão e ele jurou a si mesmo que nunca descansaria enquanto não a possuísse.

À medida que o tempo passava, mais crescia aquela idéia fixa. Tinha sonhos eróticos, desnudava-a com o pensamento quando a encontrava. Fantasiava. Imaginava aquele corpo febril, tremendo de paixão nos seus braços, implorando por amor. E ele dava. Delirava de desejo, sentindo-a praticar nele carícias incríveis: com as mãos, com a boca, com os seios, com seus pezinhos. Ouvia seus gemidos e urros de prazer quando era ele quem acariciava.  E a sentia, como se fosse a mais amante de todas as mulheres, que jamais possuíra. Imaginava posições, em que ela sugava e era também sugada mútua e simultaneamente. A vizinha se tornou para ele o foco de todos os ideais, de todas as vontades. A sua vida.

Certo dia ele chegou inesperadamente do trabalho.  Encontrou-a conversando com sua esposa, sentada numa poltrona, com as pernas levantadas. Então ele viu suas coxas. Eram ainda mais lindas do que imaginara. Alvas, grossas, lisas e macias. Teve ganas de acariciá-las, beijá-las, beliscá-las, mordê-las, comê-las. Imediatamente a moça se recompôs e sua face ficou rubra. Ele interpretou aquela reação como metade vergonha e metade desejo. Na sua mente apaixonada uma mulher jamais coraria daquela maneira se não sentisse alguma emoção libidinosa. Foi a muito custo que se conteve para não se masturbar quando entrou no banheiro. “Não farei isso”, pensou. “Meu prazer tem de ser real; nunca mera fantasia. Esta mulher tem de ser minha, nem que seja o último desejo que realize nesta vida”.

Desde aquela tarde, o que era obsessão virou loucura. Passou a assediá-la ostensivamente ao encontrá-la na rua. Ela não se esquivava e nem correspondia. Apenas exibia aquele eterno e misterioso sorriso. Aquele comportamento, para ele, era um indício evidente de anuência. Estava se fazendo de difícil por mero capricho. Esta convicção levou-o a assediá-la ainda mais. A desejá-la sempre mais; a fantasiar cada vez mais. Passou a seguir-lhe os passos todos os dias. Conhecia o seu itinerário; os ambientes que ela costumava freqüentar. As casas das suas amigas, o cabeleireiro, as butiques, as sessões de hidroginástica e massagens, as aulas de inglês, a sorveteria, o supermercado. Até que, numa determinada ocasião, decidiu abordá-la. Permaneceu próximo ao seu automóvel e pediu-lhe uma carona a pretexto de que o seu enguiçara. Ela anuiu, com a fineza de sempre, com o eterno sorriso indecifrável, com a gentileza de uma lady. “Você não vê que estou ficando louco?” “Vejo, sim. E isto está me deixando muito preocupada. Sou casada, tenho filhos, amo meu marido e sou muita amiga da Celeste. Você precisa pôr um ponto final nesta loucura. Sim, isto é uma loucura. Não podemos. Simplesmente é impossível. Seria o fim dos nossos casamentos. Seria o fim de tudo”. Esta resposta, para ele, foi como um bendito sim. Sentiu-se invadir, naquele instante,   por uma felicidade tão grande, que pensou estar sonhando no jardim do Éden. Ficou calado diante daquela resposta, apenas para fingir que concordava com ela. Que era um homem maduro e de bom senso. Que conhecia limites.

Aquela foi uma das noites mais felizes da sua vida. Dormiu profundamente e sonhou mesmo com a vizinha. Deitada despida numa cama de motel. Tinha as pernas levemente fletidas sob as coxas entreabertas. Via-se nitidamente aquele tosão dourado exatamente onde as suas raízes se encontravam. E sorria aquele sorriso de sempre e dizia: “Vem. Vem depressa satisfazer nossos desejos. Hoje serei tua. Farei tudo o que quiser, como quiser, onde quiser. Vem fazer de mim tua mulher, meu homem. Meu macho; sacia depressa a tua fêmea. Vem!”. E ele ia. Beijava-a com ardor, acariciava-a, fazia dela uma hetaira das mais dissolutas. Satisfazia-a, levava-a à exaustão. Uma, duas, três, vezes seguidas.

 O encontro seguinte  foi em plena rua. Pediu que  parasse um instante. Queria apenas conversar. "Entra no meu carro. Ficaremos mais à vontade. O que tenho pra dizer é muito sério e irá lhe interessar. Juro como irá lhe interessar". Curiosa não resistiu. Seguiram juntos para o estacionamento. “Escuta! Não suporto mais. Ontem à noite sonhei com você. Estou louco de desejo. Não vê que a amo desesperadamente?” “Já conversamos sobre isso. Não podemos e...” Ele pôs a mão no seu joelho e levantou um pouco a saia branca plissada. “Está louco? Quer provocar um acidente?” Calado tomou o caminho de um motel. E, quando menos ela esperava,  já havia ultrapassado o portão principal. “Não podemos. Não faça isto pelo amor de Deus!”

Tomou-a pelo braço e abriu a suíte luxuosa. Ligou o equipamento de som, apanhou uma garrafa de uísque e serviu duas doses. Ela não acreditando que estivesse mesmo ali. Mas a bebida a relaxou. A excitação agora era mútua e atingira um ponto crítico. Ambos sentiam a urgência da paixão. Não havia mais possibilidade alguma de retorno. As respirações se aceleravam e se tornavam ofegantes. Tiraram apressadamente as roupas.  Abraçou-a por trás,  sentindo-a reagir favoravelmente à dureza que teimava em penetrá-la. “Vamos para a cama”, disse. “Estaremos mais à vontade”. Ela se deitou de costas, abriu as pernas e se expôs inteira, exatamente como no sonho. Ia matar essa mulher de prazer. Ia satisfazer todas as suas fantasias. Deixá-la exausta e realizada. Aquelas coxas, aquelas coxas brancas, grossas, lisas e macias... Deitou-se sobre ela. Gozou imediatamente.


Raymundo Silveira por ele mesmo:
Minhas atividades na literatura não médica tiveram início com o advento da Internet. Tenho trabalhos publicados em numerosos sites sob a forma de Contos, Crônicas, Ensaio, Crítica e Poesia, além de vinte livros eletrônicos editados. Fui membro do Portal luso-brasileiro “Cá Estamos Nós” do qual recebi o “Prêmio Prestígio Biblioteca Virtual”. Meu conto “A Última Viagem” foi premiado com Menção Honrosa em concurso realizado pela Secretaria de Cultura do Ceará no ano de 2001 e faz parte de uma Antologia publicada pela dita Secretaria. Escrevo nos sites da Magriça, Nave da Palavra, Garganta da Serpente, Jornal de Crônicas, Grupo Palavreiros, A Casa do Bruxo, Bestiário (revista de contos) e em vários outros. Recebi também um prêmio do Centro Médico Cearense pelos trabalhos que tenho publicado em defesa das mulheres. Faço parte da “Academia Virtual Brasileira de Letras” e do “Jornal da Poesia”, editado na Internet pelo poeta Soares Feitosa. Fui escolhido, entre 5500 autores e através de votação democrática, um dos dez mais lidos do Portal Blocos On-line no ano de 2003.

http://www.raymundosilveira.net/        raysilveira@secrel.com.br

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