Julio Saens
Luciano & Juliana


Conto de Ray Silveira

 

- Olá. Meu nome é Luciano. Tenho vinte e quatro anos. Mas não existo.

- Oi, Sou Juliana. Dezessete. Também não existo.

- Não. Ainda não morremos. Aliás, sequer nascemos.

- Temos uma história futura pra contar: um déjà-vu real do depois.

- Acontecemos antes de viver.

- Somos uma simultaneidade do tempo.

- Calma. Logo entenderão. 

Lugares importantes tiveram casais famosos. Verona, “Romeu e Julieta”. A França, “Abelardo e Heloísa”. O Rio de Janeiro, “Capitu e Bentinho”. A Irlanda, “Tristão e Isolda”. A Palestina, “Sansão e Dalila”. Nossa aldeia é tão pequenina que nem aparece nos mapas, mas terá “Luciano e Juliana”. Somos apaixonados. Pessoas apaixonadas são como o mar. Ora, a calmaria transmite paz e enlevo. Quase felicidade. Ora, surgem tempestades que assustam. As marés têm altas e baixas. Os enamorados, aproximações e afastamentos.  

Em 1910 a borracha alcançou o preço máximo. Uma corrente migratória entre o Nordeste e o Norte levou muita gente para a Amazônia. Eu segui esta corrente. Confiava em voltar rico e me casar com a mulher da minha vida. Os dois corações fremiam de saudades. Antes da partida, juras de amor eterno. E um pacto: Qualquer que fosse o resultado da minha aventura, um não viveria sem o outro... Economizei dinheiro e a mim próprio. Gastei pouco dinheiro e esbanjei energia. Trabalhei muito e me protegi. Reuni ambas as poupanças e engendrei uma surpresa.

Era muito jovem. Meu corpo, cheio de expectativas, queria a vida toda num só instante. Sentia volúpia de natureza. De tudo o quanto tivesse vida. Uma languidez sensual. O ar morno da minha terra estava saturado de desejo. Que me penetrava enquanto eu respirava. Tudo era tão transparente e, ao mesmo tempo, tão misterioso...  Não podia imaginar que a sobrevivência de um grande amor dependesse tanto da presença do ser amado... Luciano chegou de repente. Não esperava.  

Como vêem não existíamos. Éramos personagens abstratos de um romance por ser escrito. Estéril a mente deste escritor, tivemos de invadi-la. Despertar-lhe a imaginação com o calor do nosso amor. E contar o futuro para ele escrever. Só então passamos a existir. Entenderam?

- Bem, isto foi o que disseram. Mas não sabiam que a história não tinha terminado. Jamais saberão. Paixões são refluentes remansos. Mansos cordeiros viram lobos enfurecidos. Acreditam que o ódio e o amor possam coexistir? Um pouquinho de paciência... Breve, compreenderão.

 Luciano permaneceu alguns anos na Amazônia. O tempo e a distância não arrefeceram a paixão. O mesmo não aconteceu a Juliana. Ao retornar, soube que ela teria um namorado. Esperou uma semana. Confirmado. Ou, pelo menos, assim disseram a ele. Domingo, depois da missa, ela saía da igreja. Luciano a abateu a tiros de revólver. Supunha que restava uma bala. Pressionou o cano contra a têmpora e puxou o gatilho. A arma não disparou. Enlouquecido, correu e entrou numa barbearia. Apanhou uma navalha e se degolou. Pelas ruas da minha aldeia (que também era a deles) nunca rolou tanto sangue. Rubro de paixão, e fervendo de cólera.
 Existem dois cemitérios: um velho e um novo. Luciano e Juliana estão no primeiro. Em sepulturas diferentes, mas lado a lado. Não há epitáfios. Apenas a data do nascimento de cada um e a da tragédia. Quando estou lá, visito o casal. E como se fossem miragens leio, nas duas lápides, estes versos de Augusto dos Anjos:


Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
— Alavanca desviada do seu fulcro —


E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro!”

 

17/11/2005


 

Raymundo Silveira por ele mesmo:
Minhas atividades na literatura não médica tiveram início com o advento da Internet. Tenho trabalhos publicados em numerosos sites sob a forma de Contos, Crônicas, Ensaio, Crítica e Poesia, além de vinte livros eletrônicos editados. Fui membro do Portal luso-brasileiro “Cá Estamos Nós” do qual recebi o “Prêmio Prestígio Biblioteca Virtual”. Meu conto “A Última Viagem” foi premiado com Menção Honrosa em concurso realizado pela Secretaria de Cultura do Ceará no ano de 2001 e faz parte de uma Antologia publicada pela dita Secretaria. Escrevo nos sites da Magriça, Nave da Palavra, Garganta da Serpente, Jornal de Crônicas, Grupo Palavreiros, A Casa do Bruxo, Bestiário (revista de contos) e em vários outros. Recebi também um prêmio do Centro Médico Cearense pelos trabalhos que tenho publicado em defesa das mulheres. Faço parte da “Academia Virtual Brasileira de Letras” e do “Jornal da Poesia”, editado na Internet pelo poeta Soares Feitosa. Fui escolhido, entre 5500 autores e através de votação democrática, um dos dez mais lidos do Portal Blocos On-line no ano de 2003.
http://www.raymundosilveira.net/        raysilveira@secrel.com.br