Estão-Me Gordo

Raymundo Silveira 

RonMueck, Big ManEngordar. Comer. Engordar. Comer. Engordar... Inflação de banhas com juros e correção, na pou-pança da desgraça. Abundosa bunda, unhas compridas, tristeza longa, curta ilusão. Horas escutando o silêncio. Gado no açougue. Cabeça de suíno. Bafio de solidão. Semblante de zeros à direita dos anos já vividos, e à esquerda dos por virem. Ignorava se existia de verdade ou era um pesadelo. Ódio de quem tinha medo de passar fome. De morrer de fome. Daria tudo para nascer de fome... Não foi sempre assim. Metamorfose, não Natomorfose. Saí. Nu. Pedir ajuda. Denunciar. A quem, senão à polícia? Fui a uma delegacia. Alguém tinha de ser responsável... reparar danos físicos e morais. Senhor, quero registrar uma queixa. Nenhuma atenção. Nem reparavam que era rendido: o escroto e os ovóides inchados balançando... pendulando rentes aos joelhos. Feito enforcado de anteontem, oscilando ao sabor de um vento insípido. Tremia de frio e de incertezas. Aproxime-se. Do que se trata? Quero fazer uma denúncia. Contra quem? Contra tudo, contra todos. Contra deus e o mundo. Eu não era assim. Nasci nu. Mas não gordo. Nome, profissão, estado civil. Dita. A queixa do homem, não a dita dele. O escrivão escreve. Que nasceu nu. Mas não gordo. Cite-se deus e o mundo para depor. Assine. E agora, senhor? Que providência vai tomar? Não bebo em serviço, amigo. Só tomo água. Pode se retirar. Sua denúncia está registrada. Sair. Voltar para onde se encontrava. Permanecer sentado no chão, mirando o nada. Cabeça apoiada sem apoio. De ninguém. Sozinho. Um oásis de ervas daninhas num deserto de tudo. Gordo. Muito mais gordo do que as tempestades de areia do Saara. Não sei qual foi a minha culpa. Por pior que tenha sido, espero terminar de expiá-la. Não conheci pai. E tive vários. Um deles morreu antes de casar com minha mãe. Vítima de erro médico. Este excesso de peso é minha única preocupação. A nudez não incomoda. Por isso nem lamentei quando ele morreu. Pois estava certo de que nada poderia fazer por mim. Sempre vivi em função de uma espera. Godô virá me socorrer. Godô virá me emagrecer. Somente ele poderá me salvar. Nunca me preocupei em estudá-lo. Ele é como a música: basta ouvir. Uma tela concretista: não preciso entender para admirar. Ou ainda como a brisa: não preciso ver, basta sentir para saber que existe. Não posso esperar eternamente. Tenho de encontrar ajuda antes da chegada de Godô. Afinal, não estou tão certo assim da sua vinda. Às vezes o esquivamento do mundo me apavora, mas quando comparo com o meu próprio esquivamento, tudo se anula feito uma serpente que desaparece ao se engolir a si própria a partir da cauda. Outras vezes, estou fora da Terra. Sou capaz de sustê-la. Sinto-a estrebuchar em minhas mãos como se fora um pássaro em desespero. E tenho de me conter para não esmagá-la feito um torrão que se desfarela por entre os dedos. A casa tem dois pavimentos e um subsolo. O quarto fica no térreo e é tão nu quanto ele. Nenhuma mobília. Só está ali por não ser capaz de insuportar. A intolerância ao ambiente é neutralizada por uma passividade bovina. A presença de estranhos incomoda. Pessoas curiosas da escandalosa obesidade. Há um guarda na porta. Não se aproximam. Porém, a curiosidade aumenta e atrai mais adventícios. Todos vestidos. Olham-no de esguelha e à distância, apesar da vigilância do guarda. Sempre preferiu o subsolo. Já esteve lá várias vezes. Até se divertia brincando com baratas, camundongos e aranhas, tal qual o Prisioneiro de Chillon. Só que não se sentia prisioneiro. Pelo contrário, era o seu habitat. Nenhum daqueles seres se escandalizava com excesso de gorduras. E os curiosos não tinham acesso. Jamais esteve no andar de cima. Sente pavor só de pensar em ter de ir para lá. Não se trata do medo de altura, mas da certeza de deparar com coisas terríveis. Reconhecer-se nu. E se desesperar por causa disso. Já ouvira comentários. Quem subir ao segundo pavimento, nunca mais será o mesmo. Teria de conviver para o resto da vida com o que mais detesta: a censura. Não a censura alheia, esta pouco importa. Mas a própria. A mais tirânica. Em que penso? Em nada. Dúzias de eternidades não me fariam pensar. Para quê? Pensamentos geram idéias. E estas, ideais. Não quero outro ideal, senão emagrecer. Para tê-lo não preciso pensar. Outro ideal poderia reverter a novas idéias e remover a única que me interessa. Em verdade, enganava-se a si próprio. Pensava, sim. E muito. Só que tais pensamentos produziam um emaranhado de bêbadas idéias em perpétua fuga. Ora bordejavam as vielas dos subúrbios, ora vagavam cambaleantes pelo espaço sideral. Por exemplo, era um celulólatra: tinha pavor de que viesse a faltar papel. Comia-o como prato principal e sobremesa a cada refeição. Usava-o à guisa de lenço, travesseiro, lençol, colcha, colchão, cama, pano de pratos, pano de chão, estopa, embrulho, acendedor de lume, penico, coador de café, e até para arquivar documentos, fazer livros e limpar a bunda do Buda no qual se transformara. Em suma, se tivesse de optar, preferiria a celulose à água e ao ar. Pensava demais também em comer qualquer tipo de alimento. Ao sentir-se faminto, nada o detinha. Nem surgindo um estímulo fisiológico mais intenso. Um apelo instintivo que, em outras pessoas, tornaria a fome irrelevante. Bastava o cheiro da comida ou do papel: gotas de saliva escorriam copiosas pelos cantos da boca. Ejaculações prematuras. Masturbações alimentares. Os orgasmos não saciavam o desejo: quanto mais salivação mais comida, mais salivação, mais comida... Um ciclo vicioso (para ele, virtuoso) sem fim. Quanto aos passeios intergalácticos, seus planos extrapolavam aquele vício tão bisonho. Não apenas a Via-Láctea, como todo o universo seriam cosmopolitizados, tendo a Terra como referência. Um geocentrismo sócio-econômico. Todos os bens e serviços seriam monopólios terráqueos sideralizados. Onde quer que existisse vida, os cidadãos e os animais de carga viveriam sujeitos aos ditames nativos. Em outras palavras, somente o produto seria universalizado. Nunca os produtores. Ontem estava polindo uma lâmpada, quando me apareceu um sujeito vestido à moda oriental e me propôs realizar três desejos. Nem pensei nos outros dois: pedi para emagrecer. Então, veio com uma condição absurda: só poderia me atender se eu cedesse cada um dos meus quilos em excesso para indivíduos subnutridos de lugares onde jamais estive. Rejeitei, claro. A banha é excessiva, mas é minha. Só minha. Quem quiser engordar, vá comer como eu comi... ou... não tem ou... Não existe nada de graça. Sou gordo e quero emagrecer; não à custa de doações. Minhas palavras são mudas, pronunciadas para surdos e escritas para cegos. As pessoas não estão nem um pouco interessadas no que tenho a dizer. Cuidam existirem problemas mais graves e urgentes do que os meus. Fingem ignorar que sou um cometa em rota de colisão com a Terra. Vou me espatifar e ela também será pulverizada. Meu afligimento não tem nada a ver com liberdade. Nem a cheirar, nem a saborear, nem a escutar, nem a tatear... Renuncio a ela, de bom grado, em troca da dor de viver nesta masmorra amorfa e balofa. Seria, pois, o auge do maravilhamento se me trancafiassem numa solitária, com todos os meus ossos à mostra. Ancestrais memórias bloqueavam-lhe o discernimento. Haveria de ser: Liberdade absoluta ou prisão perpétua. Gordura ou magreza. Feiúra ou beleza. Doçura ou amargura. Bem ou mal. Códigos primitivos de deuses primevos. Ou medievos. Godos, Visigodos... Godôs... Começo a desconfiar: aquilo não é somente gordura, mas também inchação. O centro é gordo, sem dúvida. A barriga é ancha. As ancas e regiões circunvizinhas, também. Mal de rico. Já a periferia tem um quê de doença de pobre. Nas pernas e nos tornozelos a pele é atrofiada pela escassez de carnes e grossas como a infelicidade. Bastam leves toques para se formarem covas como num cemitério de anjos. Só se desfazem com o tempo ou com remédios. Os olhos são empapuçados como os de um cadáver. Enorme contradição: num mesmo corpo, simultaneamente, tanta gordura e tanta miséria. E o pior: a cabeça não percebe. Ou finge não perceber. Mais um problema para Godô. Se ele não resolver agora, consertará mais tarde, depois da grande viagem à terra prometida. Um novo Êxodo. Não tenho tempo para cuidar da saúde. Tenho pavor de médicos. Já sei o que vão dizer: faça dietas, tome isso, tome aquilo, distribua melhor suas refeições, evite o sedentarismo... Conversa mole. Pagar um absurdo para escutar a mesma cantilena. Já faço o possível. A periferia reclama de barriga cheia. Pela minha boca entra a mesma quantidade de comida. Não é minha culpa se a gordura insiste em se acumular em determinadas regiões. Não é só. Há mais incoerências. Mais artimanhas contra mim. Querem me ensinar a ter saúde sem terem me ensinado a não ficar doente. Desde quando me entendo por gente jamais tive um conseguimento. Intolero a realidade. Fiz da vida um romance. Cada infortúnio, debito na fatura do fantástico. Cada pequeno êxito, credito na conta das fantasias. Portanto, não tenho nenhuma razão para viver, a não ser estar vivo. Dizem que o grande castigo de ser gente é a certeza da morte. Não para mim. Não me preocupa nem um pouco não saber como vou ser quando já não for. Considero meu maior castigo, depois desta maldita obesidade, ter consciência da minha ignorância. Conhecer a vida e ignorar a sua serventia. Me considerar inteligente e não inteligenciar a inteligência. Saber ser o espaço infinito e, ao mesmo tempo, não poder sequer conceber como não é. Há outra questão de natureza filosófica e gramatical que não interessa nem um pouco às pessoas vulgares, mas me causa perplexidade e angústia. Sim, sou invulgar. Não no sentido de me sentir superior. Sou invulgar pela complexidade mórbida do meu caráter. Vamos à questão. Para a maioria das outras línguas os verbos estar e ser têm iguais significados. Neste nosso idioma, são completamente diversos. Ser é muito diferente de estar. Tudo estaria esclarecido quando eu me sentisse sendo ou estando. Por exemplo, sou gente e estou vivo. Mas existem situações em que isto é impossível de ser definido: sou ou estou gordo? Para pessoas indiferentes a esta deformidade, não resta dúvida: sou gordo. Para aquelas que, por qualquer motivo, querem ou fingem querer o meu bem-estar, eu não sou gordo: estou gordo. Quanto a mim próprio, não sou, nem estou: estou-me gordo. Enquanto cuidarem ser eu o único culpado por isto. Em verdade, estão-me gordo. Pois como já declarei antes, não nasci assim. Alguém ou alguma coisa são os verdadeiros responsáveis... E este idiota ainda tem a petulância de dizer que não pensa. Esnobar. Pensa, sim. Mas é tudo baboseira. Retórica de embriagado. Filosofia de botequim. Melhor seria se cuidasse de ter pensamentos úteis. Estas especulações existenciais são meras desculpas para justificar o ócio e o egocentrismo crônico onde vegeta. Todo gordo é preguiçoso e egoísta. Vão dizer: é inveja. Seja-me. Prefiro estar-me invejoso a perder tempo com filosofadas baratas...

 

04/03/2006

 

Raymundo Silveira por ele mesmo:
Minhas atividades na literatura não médica tiveram início com o advento da Internet. Tenho trabalhos publicados em numerosos sites sob a forma de Contos, Crônicas, Ensaio, Crítica e Poesia, além de vinte livros eletrônicos editados. Fui membro do Portal luso-brasileiro “Cá Estamos Nós” do qual recebi o “Prêmio Prestígio Biblioteca Virtual”. Meu conto “A Última Viagem” foi premiado com Menção Honrosa em concurso realizado pela Secretaria de Cultura do Ceará no ano de 2001 e faz parte de uma Antologia publicada pela dita Secretaria. Escrevo nos sites da Magriça, Nave da Palavra, Garganta da Serpente, Jornal de Crônicas, Grupo Palavreiros, A Casa do Bruxo, Bestiário (revista de contos) e em vários outros. Recebi também um prêmio do Centro Médico Cearense pelos trabalhos que tenho publicado em defesa das mulheres. Faço parte da “Academia Virtual Brasileira de Letras” e do “Jornal da Poesia”, editado na Internet pelo poeta Soares Feitosa. Fui escolhido, entre 5500 autores e através de votação democrática, um dos dez mais lidos do Portal Blocos On-line no ano de 2003.

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