O AMOR É LINDO

Raymundo Silveira

Mãe! Tenha pelo menos consciência do ridículo a que está se expondo... E expondo a sua família também...
Ela não percebia. Sabia apenas que estava sendo feliz pela primeira vez.
- Não fala assim comigo. Nada me assusta. Cansei de ter medo. Cansei de respirar repressão. A vida inteira cumprindo ordens. Agora que venci o jogo e ultrapassei a ordem, não há mais parança. Este é o meu momento. Jamais me senti tão mulher. Lamento não ter nascido animal. Apenas por um motivo: eles não precisam reprimir os instintos. Quando era adolescente, tinha inveja da minha gata. No cio, se entregava sem nenhuma inibição. Encontrava o prazer onde quer que houvesse um gato. Ainda assim miava em desespero. É isso. Aos cinqüenta e oito anos, chegou a minha vez. Sinto que sou igual a ela. A única diferença é que sou gata de um gato só.
- Não é somente isso. Temos todas as afinidades - intelectuais, artísticas, filosóficas, ideológicas, físicas e químicas. Ambos somos artistas, poetas, humanistas, pessoas lindas, com uma puta história de vida, de luta, de justiça. E muita juventude ainda. Algo como almas gêmeas. Juntos, chegamos à conclusão que depois dos 58 ou dos 60, podemos ainda viver uma bela história de amor. Renunciar ao passado. Às chamadas "estabilidades". Afrontar as famílias, os filhos, o sistema.
- Não posso acreditar no que estou ouvindo. A senhora não pode falar assim...
- Não pode acreditar mesmo. Quer saber por quê? Porque embora só tenha dezenove, há milhares de anos isto foi incutido na sua cabeça a ferro e fogo. Até ontem também pensava assim. Aprendi um novo método de viver. Eu era uma múmia. Agora sou a rama densa de um arbusto desfraldado ao vento. Sinto a brisa da liberdade a soprar sobre a minha folhagem. Levito à noite e sonho durante o dia. Você pode até chamar a isso de poesia. E é mesmo. Resolvi viver intensamente o poema da minha existência.
Vivia um casamento de aparências. No dia seguinte saiu de casa e foi morar com o amante de sessenta anos. Que também experimentava uma tragédia conjugal. Arriscaram um jogo. Apostaram todas as fichas no amor. Num duelo de morte entre este e o establishment. Tais quais as bulas escritas pelo Papa, os grandes pensadores gregos nunca erram. Uma sentença de Sófocles parecia sancionar a escolha. Não foi ele quem escreveu que "se deve esperar o anoitecer para ver como o dia foi maravilhoso"? Estavam dispostos a ir além. Esperar o anoitecer para contemplar o passado seria como retomar o caminho de volta ao Inferno. Ambos estavam certos que iam transformar a noite, numa espécie de suave "hard day’s night".
Havia a outra face da moeda a ser considerada. Ambos pertenciam à classe média média. Sem posses, sem garantias. Para viver esse amor, tiveram de renunciar ao que já tinham e lutar juntos para construir nova vida. Tudo isto foi devidamente ponderado. Mesmo assim mantiveram a aposta. Eram maduros, generosos, tolerantes.
O amor existe. O prazer existe. A atração entre um homem e uma mulher é inegável. E pode ser tão intensa a ponto de fazer alguém enxergar felicidade em cada milímetro quadrado de mundo. E isto pouco depende de idade. Talvez, postos numa balança, o prato pesasse a favor dos menos moços. Maturidade, experiência, anos já vividos são excelentes contrapesos. Um jovem e uma moça propendem a se mirar num espelho exclusivo. Um casal de meia idade prefere compartilhar imagens.
Além de se amarem, dialogavam muito. Concordavam que as fases da vida eram como os períodos do dia. Há momentos diversos. As perspectivas são como nuvens: mudam a cada instante. Mas nem por isso alguma deve, necessariamente, ser superior ou inferior a outra. No caso deles, por exemplo, a noite estava linda. O zimbório desanuviado se deixava atravessar por um clarão de prata. E se encontrava salpicado de estrelas.
O orçamento apertado pouco interferia. Tomavam, juntos, o desjejum: café, pão e manteiga. As cortinas, de terceira mudança, esvoaçavam de alegria. Ao meio dia ele chegava suado de fome e comia o que tivesse. Nenhuma reclamação. Eventualmente, lembravam os respectivos casamentos e se sentiam convalescentes de uma grave enfermidade. Para cada hora que passavam juntos, sobrevinha um minuto de saudade. Seguido de um segundo de esperança. Por mais uma hora de felicidade.
Conviveram assim durante um ano e seis meses. Não precisou de doença alguma. Nada de câncer de próstata, ponte de safena ou mastectomia radical. Ambos estavam saudáveis como bebês de reclame. Ainda assim tiveram de se separar. Ela não tolerava mais vê-lo passar fio dental. Sentia como se assistisse a uma ópera bufa onde um personagem ridículo serrava, após cada refeição, um osso da própria boca. Ele, por sua vez, não suportou escutar aqueles puns escandalosos que ela assoprava enquanto dormia...

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"A diferença entre ficção e realidade? Ficção tem que fazer sentido."  (Tom Clancy)

Raymundo Silveira por ele mesmo:
Minhas atividades na literatura não médica tiveram início com o advento da Internet. Tenho trabalhos publicados em numerosos sites sob a forma de Contos, Crônicas, Ensaio, Crítica e Poesia, além de vinte livros eletrônicos editados. Fui membro do Portal luso-brasileiro “Cá Estamos Nós” do qual recebi o “Prêmio Prestígio Biblioteca Virtual”. Meu conto “A Última Viagem” foi premiado com Menção Honrosa em concurso realizado pela Secretaria de Cultura do Ceará no ano de 2001 e faz parte de uma Antologia publicada pela dita Secretaria. Escrevo nos sites da Magriça, Nave da Palavra, Garganta da Serpente, Jornal de Crônicas, Grupo Palavreiros, A Casa do Bruxo, Bestiário (revista de contos) e em vários outros. Recebi também um prêmio do Centro Médico Cearense pelos trabalhos que tenho publicado em defesa das mulheres. Faço parte da “Academia Virtual Brasileira de Letras” e do “Jornal da Poesia”, editado na Internet pelo poeta Soares Feitosa. Fui escolhido, entre 5500 autores e através de votação democrática, um dos dez mais lidos do Portal Blocos On-line no ano de 2003.

http://www.raymundosilveira.net/        raysilveira@secrel.com.br

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