A GRANDE CORRIDA

P. J. Ribeiro

Os homens estavam fazendo ginástica em pleno pátio do colégio enquanto Elvira sentada olhava pra tudo ora punha a mão no queixo ora esfregava os pés e tinha uma trança e um vestido comprido e aquelas coisas anáguas e babados e pintura forte num rosto magro de batom.
Um guia na frente ordenava aos homens o que fazer abaixar levantar e Elvira de vez em quando levantava e abaixava remedando os homens.
O sol estava a pino e as jabuticabas do quintal do colégio estavam muito pretas em cima dos pés.
Um dos homens gritou: "Não agüento não. Minhas pernas estão tremendo. Tô com febre, uai!"
O guia fingiu que entendeu estendeu os braços pra frente e continuou seu trabalho normalmente agora com muito mais força e exigindo mais e mais.
Depois de passadas horas e horas três homens caíram desmaiados no chão: um fraturou a cabeça, outro quebrou o pé e o outro morreu simplesmente. Ficaram deitados e impassíveis e o sol torrando a cabeça de todos.
O guia frenético gesticulava exigia cada vez mais começou a pular barreiras imaginárias a dar saltos mortais e a gritar a plenos pulmões.
Metade dos homens agora estavam engatinhando com a língua pra fora. O resto estava duro como pedra só olhos braços e caras. De repente Elvira levantou-se e começou a gritar também que já estava cansada com as tranças desarrumadas e que todos se preparassem para a grande corrida. E deu o sinal.
Nisso o batom de seu rosto transformou-se numa imensa bola de fogo seus babados numa capa indevassável parecendo pára-quedas quando desce no ar.
Os homens ao saírem dos seus lugares aos trancos e barrancos caíram uns por cima dos outros e o guia ficou por baixo com a cabeça pra fora.
E Elvira qual louca subiu no telhado do colégio amarrou uma corda na torre de TV e desceu sorrindo.

PJR - poeta, contista, autor, entre outros, de Interlocutando.. Mora no eixo Cataguases-Rio


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