Oswald de Andrade(1890-1954)  foi uma das vozes renovadoras da poesia brasileira do séc. XX. O poeta que fundou uma linguagem transgressora,  buscando libertar o verso das amarras da falsa erudição, e, ainda por cima, uma falsa erudição importada da Europa. E foi na Europa, numa janela qualquer de Paris, que ele descobriu o Brasil e suas peculiaridades, seus fantasmas, suas metáforas, suas cores, sua língua. O mais moderno dos modernistas fundiu poesia e prosa, riu de si e de seus patrícios, criando para a poesia uma nova via onde a brasilidade emergiu como o elemento próprio e fundamental.  O texto e a entrevista  abaixo foram realizados por Flávio Pôrto em 1954  para a revista paulista de cultura SOMBRA. Agradecemos a especial atenção de Cláudio Giordano, editor da Revista Bibliográfica e Cultural a autorização para pudéssemos reproduzir este material em Tanto. Luiz Edmundo Alves

  Oswald em  1923 em óleo de Tarsila do Amaral, com Tarsila em 1924  e em 1954


      "Não foi difícil achar Oswald de Andrade; pelo telefone mesmo, disse-lhe 
      do motivo pelo qual pretendia avistá-lo. 
      Trazia uma recomendação de Paulo Mendes Campos e gostaria  de fazer uma 
      entrevista . Ponderei-lhe que não tomaria muito de seu tempo . Já tinha 
      as perguntas formuladas e, além do mais, (isso não lhe disse), ia com as 
      idéias imbuidas num tópico do jornal  "Última Hora", publicado com certo 
      destaque semanas antes de minha visita a São Paulo, onde li : 
      "Deu cupim na cabeça do velhinho". O velhinho era Oswald de Andrade. 
      Entrei no apartamento de Oswald (agora já o chamo assim), e encontrei-o 
      bonachão em meio a alguns papéis escritos, esparramado numa poltrona . 
           - Sente-se e não me dê  recomendação alguma; os jovens não precisam 
      de recomendação para falar comigo, disse-me ele, deixando-me logo à 
      vontade .Conversamos longamente sobre coisas boas e ruins, e logo 
      percebi que havia dado cupim era na cabeça de quem havia redigido a 
      nota  de "Última Hora", pois o "irreverente" Oswald de Andrade era 
      aquele mesmo homem inteligente e espirituoso de quem tantas vezes ouvi 
      falar na casa - saudosa casa -de Alvaro Moreyra . 
           Falou-me da desesperança literária que o assaltou um dia . Durante 
      algum tempo no Brasil, contava-me, a ausência de valores tornou-se de 
      uma maneira tal, que quase suicidei-me literariamente . Mais tarde 
      melhorou, prosseguiu, surgiram elementos realmente de valor, apareceu 
      poesia de Vinicius de Moraes, surgiu Paulo Mendes de Campo . Sérgio 
      Milliet continuava a ser o maior informante do Brasil, produto de seus 
      esforços como estudioso  de tudo e de todos, e também fez versos muito 
      bons por sinal . Havia ainda Cassiano Ricardo, Rachel de Queiroz e 
      tantos outros que me ressucitaram para a literatura, pois continuavam a 
      produzir coisas boas, disse ele, desta vez já afastado de seu trabalho e 
      com todas as atenções para o que me dizia . Não me refiz totalmente, 
      porque o número de "picaretas" na imprensa e na literatura era tão 
      grande, que seu analfabetismo fazia-me esquecer esses que, ainda, achava 
      bons. 
          Um grande número de mulheres, invadiu a literatura nacional, na sua 
      maioria "semi-analfabetas" fazendo movimento estéril . 
           Depois sim, melhorou e muito . Até mesmo nos menores setores, 
      surgiram e continuam  surgindo valores positivos. E ai desandou a citar 
      nomes . Falou demoradamente e com grande entusiasmo de Millor Fernandes, 
      o Vão Gogo, dizendo da sua capacidade de criar coisas novas, e todas 
      boas. Comentou "Uma mulher em três atos", peça teatral de autoria de 
      Millor, onde diz ter encontrado finalmente quem não escrevesse 
      "bobagens" . Demorou-se também falando sobre Tiago de Mello, em quem 
      vê um bom poeta, que, apesar da bagagem literária que já possui, tem ainda 
      capacidade de escrever muito mais, com tendências a melhorar . Falou 
      sobre Geir Campos _"um grande estudioso", e deteve-se para dizer da 
      grande importancia de Paulo Mendes de Campos . "Paulinho faz tudo 
      direito. Crônica, verso, ensaio, tradução e se derem cinema para ele, 
      garanto que vai fazer melhor que muito italiano idiota que anda por ai". 

           Quanto a vocês, dizia isso referindo-se a mim, vocês todos que 
      iniciaram a pouco tempo a escrever, tem uma responsabilidade muito 
      grande . No meu tempo, eu escrevia para um país de analfabetos, mas hoje 
      todo mundo lê, todos se interessam pelo que se escreve por aí, em suma, 
      o público está muito mais esclarecido, e há um número muito maior de 
      pessoas escrevendo bem . Acredito que muitos vençam, muitos dessa 
      novíssima geração . 

          E citou Darwin Brandão e Carlos de Oliveira como repórteres . Maria 
      Karam como pintora e Millor Fernandes (qualquer setor). 
          Às seis horas da tarde - tinha um compromisso para jantar em Santos 
      - entreguei-lhe as perguntas, que foram respondidas prontamente, e 
      surgiu o clássico cafezinho acompanhado de uma verdadeira bateria de 
      remédios, que por mais amargos que fossem, deviam saber-lhe doces, dado 
      o carinho de quem os trouxera, esse monstro de simpatia que é a Sra. 
      Oswald de Andrade . Um a um, ele foi tomando-os e comentou com um 
      sorriso : "Tem gente à bessa torcendo para que eu morra, mas os médicos 
      estão de safadeza com eles. Cada dia eles inventam um negócio novo e, 
      hoje em dia, eu estou quase perfeito" . 
          A Sra. Andrade retirou-se sorrindo, e afirmando : "Esteja tranqüilo 
      Oswald, você não morrerá nunca". 
          No que, indubitavelmente, tem razão . 
       
       

      Entrevista de Oswald de Andrade a Flávio Pôrto  

       - Quais os livros essenciais a humanidade ?  
      Não são, nem a Bíblia, nem o Alcorão, nem Margarida La Rocque. 
      - Onde gostaria de morar ?  
      Em Paris . 
      - SãoPaulo é uma grande coisa?  
      Mezzo a mezzo . 
      - O que você acha de sua poesia ? seus romances? suas idéias ? 
      Não posso dizer, porque você não publica . 
      - Acha "O Cangaceiro " um bom filme ?  
      É, sem dúvida . Quanto a Lima Barreto, há um engano . Não se trata de 
      nenhum super-ego e sim, de uma super-égua . 
      - O que acha do Museu de Arte Moderna do Rio e de São Paulo ? 
      Prefiro o do Rio. 
      - O que o mundo deve fazer entre os EE.UU. e a Rússia ?  
      Ficar com os dois . 
      - Conheceu Stephen Spender ? Que achou ?  
      Muito crescido . 
      - De quem foi a idéia da semana de arte moderna ?  
      Do grande Di Cavalcanti . 
      - Você procurou fazer as pazes com Mário de Andrade ?  
      Não . 
      - Qual o maior sociólogo  brasileiro ?  
      Eu . 
      - Quais os melhores e  piores romancistas brasileiros ? 
      Os piores são : o búfalo do Nordeste, José Lins do Rêgo, e o benteví do 
      Sul, Érico Veríssimo . Mas, pior poeta há um só _Augusto Frederico 
      Schmidt . 
      - Você se acha um homem justo ?  
      Perfeitamente . 
      - Quais são os mais requintados imbecis do Brasil ?  
      Pedro Calmon, Pedro Bloch e Nelson Rodrigues . 
      - Você acha que a Bienal vai ser um sucesso ?  
      Não . O Sr. Cicillo Matarazzo já começou a fazer compadrismo, aquele 
      incansável compadrismo que já fez do plagiário Di Preti  um pintor 
      conhecido . 
      - Que acha do Plínio Salgado ?  
      Uma vaca . 
      - Getúlio é homem inteligente ?  
      É . 
      - Qual o maior defeito da política brasileira ?  
      Existir . 
      - Por que o Brasil perde os campeonatos de futebol ? 
      Por causa do José Lins do Rêgo . 
      - Que escritores jovens você deportaria do Brasil ?  
      Mandava o poeta Loanda voltar para Loanda . Lêdo Ivo ia para a Oceania, 
      de onde veio . 
      O José Conde ficava porque não é jovem nem escritor . 
      - Que ministro você poria no Governo ?  
      Josué de Castro, Gilberto Freyre e Cassiao Ricardo . 
      - É capaz de definir a UDN em poucas palavras
      Não . 
      - Quais as mulheres você acha que escrevem bem no Brasil ?  
      Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Lucia M. e Adalgisa Nery . 
      - Qual seria sua atitude se Getúlio desse um golpe ?  
      Aderia . 
      - Acha que o samba melhorou ?  
      Piorou . 
      - Alguma coisa melhorou no Brasil depois de 1930 ? 
      O salário e o custo de vida . 
      - Que acha dos auxiliares de Getúlio ?  
      Quais ? 
      - O baile de Coberville é um sinal  de decomposição de nossas elites ? 
      Não . Foi uma das raras coisas boas que fez o senador Chatobrioso . 

      voltar