Rui Santana
óleo sobre tela - Rui Santana

Fora do quarto à noite Nelson de Oliveira

O segundo relâmpago em menos de meio minuto. Chove? Não. Nem sinal de chuva. Todo o céu, exceto uma pequena região mais ao norte, continua transparente, limpo.
Meio tonto, de fogo, Edgar sobe os degraus da pensão onde está hospedado, queimando tudo ao seu redor. Diante da porta de vidro, dia após dia, a mesma imagem refletida: um clarão contínuo espalhado em sua roupa, no rosto, em todo o corpo. Onde quer que vá as chamas o perseguem.
Um minuto de silêncio. Deixa a garrafa perto do capacho.
Antes de abrir a porta certifica-se de que não vai chover. Parado, olhando para o alto, não, nada de chuva. É apenas um blefe. Talvez na semana que vem.
Contra o fundo negro aparece a silhueta do edifício velho e escuro, onde Edgar não só passa as noites, mas também onde lava suas roupas e faz todas as refeições. Pelo menos provisoriamente, até que sua antiga casa, destruída por um incêndio, volte a ficar em pé.
Ainda olhando para o alto, começa a se sentir fraco. Por um instante se apóia na maçaneta da porta. Nessa posição consegue ver melhor a silhueta do prédio, mas a luz dos postes ainda é insuficiente e a sua própria luz, compacta. Ambas deixam surgir apenas uma muralha alta e indefinida, metida entre uma dezena de outras muralhas, todas iguais, pontilhadas por aberturas regulares. Portas e janelas, janelas e portas.
Edgar sente a maçaneta derretendo em sua mão. Decide entrar.
Dentro, começa a subir a escada do hall, ora apoiando-se na parede, ora no corrimão. Mas o corrimão geme, não se sabe muito bem se devido ao seu peso, ao movimento de vaivém dos degraus, ou ao toque incandescente dos dedos na madeira. Isso o deixa irritado. Por precaução passa a subir um pouco mais devagar, escolhendo melhor os pontos onde se apoiar.
No alto, fica olhando a rua através do vidro da porta lá embaixo. Quente, muito quente. A noite está perdida, pensa, e em seguida, sonolento, continua a andar. O assoalho do corredor também geme.
Quarto vinte e dois.
Diante da porta, Edgar ainda se demora alguns minutos procurando a chave. Onde está essa maldita chave?!? Com os dedos abertos, procura no interior dos bolsos, contorcendo-se e espalhando faíscas pelo chão. Se me encontrarem neste estado vão pensar que estou bêbado. Alisa os cabelos emaranhados.
Após entrar, vai mecanicamente até a cozinha, abre a geladeira, pega várias fatias de queijo. Vinho? Por que não? Mas não há vinho em casa. Apenas queijo. Conformado, divide as fatias no prato, cuidando pra que não derretam entre os dedos. Mas não chega a prová-las.
Da porta da cozinha olha para o quarto e percebe que o fogo já está à sua espera, na forma de uma pequena labareda queimando sobre a cama.
Olhando-se num pedaço de espelho largado em cima da pia, Edgar não se reconhece. A luz da cozinha é fraca, mal intencionada. Seu corpo inteiro, ao contrário, queima, possui luz própria. Mesmo assim, compreende, jamais poderá unir-se àquele outro incêndio no quarto. Pois aquele é, sempre foi, um fragmento indissolúvel da fagulha demoníaca, da forma fugaz que deu origem a todos os incêndios já ocorridos na face da terra, desde os dias da Criação. Um pedaço da fagulha ancestral, primeva, aquela. Além do mais, todo o fogo que não vem de mim mesmo, pensa ele, é em essência impenetrável.
Mas de onde teria vindo? O que estaria fazendo aqui?
— Acredito realmente que isso não passa de uma brincadeira. Uma brincadeira, de fato. Ou um engano. Nada mais fácil do que a ocorrência de um engano, num prédio tão grande. Sim, muito grande.
Contudo, você deve se defender, diz a si mesmo. Não se deixe levar pela beleza lasciva do fogo eterno. Caso contrário as pessoas não vão ter a mínima idéia da verdade.
Edgar torna a guardar as fatias de queijo. Quando fecha a porta da geladeira, a lufada de ar frio se interrompe. Então percebe que o cheiro de lençol queimado já está impregnando boa parte da cozinha, comprometendo de maneira irremediável o frescor dos legumes em cima da pia.
Novamente a idéia de um engano perambulando pela cozinha, pela sala, pelo quarto. Um pequeno fantasma. Nada muito real, compreende?
Apreensivo, Edgar se pergunta se esse tipo de preferência — a fagulha primordial sempre no seu encalço — teria a ver com o fato de ele, Edgar, ser o chefe do corpo de bombeiros. Aposentado, sim. Mas ainda chefe!
Atravessa o pequeno corredor. Anda até o quarto.
Ali o fogo queima. Não é real, também não é sonho. Onde quer que Edgar vá — e ele, na idade a que chegou, já esteve em vários lugares — o fogo queima. Hoje sobre a cama. Há duas semanas dentro do armário. Nada muito exagerado, a princípio. Apenas uma labareda fria e insignificante. Nem sólida nem líquida. Queimando há vinte bilhões de anos.
Uma nuvem baixa e malcheirosa faz com que seus olhos comecem a arder.
As janelas estão fechadas. Talvez não fosse má idéia abrir a porta do apartamento. Os vizinhos compreenderiam. Mesmo que toda essa neblina começasse a incomodá-los.
Edgar abre a porta. A neblina sai do quarto direto para o corredor, rasteira. Na escada mal consegue preencher os primeiros degraus. Mesmo assim já penetra nos apartamentos vizinhos, passando pelo vão das portas. Um tapete finíssimo e acinzentado.
Pensando bem, cogita, não seria melhor avisar a todos pra que deixem o edifício?
Com o nó dos dedos Edgar pam-pam-pam várias vezes na porta ao lado. Victor, você está aí?
Nenhuma resposta.
Edgar volta a bater, vamos, acorda.
Estaria ausente?
Claro que não. Raramente sai, esse rapaz, o Victor.
Talvez esteja se escondendo.
Edgar perde a paciência. Victor deve-lhe dinheiro, muito dinheiro. Porém isso não é razão pra que não abra a porta, grita ele, olhando pelo buraco da fechadura.
Agora não está batendo com tanta calma. As pancadas são fortes, precisas. Vão deixando marcas de queimado na madeira e fazem-se ouvir até nos andares inferiores. Aos poucos, como a fumaça, o pam-pam-pam vai caindo pela escada, quicando nos degraus, nas paredes.
— Boa noite, senhor bombeiro.
Edgar dá meia-volta.
Semelhante a um espectro, uma velha surge no corredor escuro, cuja lâmpada sabe-se lá por que ainda não havia sido acendida — ou estaria quebrada? —, e permanece em pé, sobre uma tábua do assoalho que balança imperceptivelmente.
— Olá. Boa noite, senhora Olaf.
— Algum problema com o senhor? Não consegue dormir? Ouvi passos... O senhor compreende? Passos no corredor.
Atrás de Edgar, o fogo aos poucos vai preenchendo o quarto. Ocupa boa parte da cama, amarrota o lençol, a fronha do travesseiro, o próprio travesseiro. Invade o colchão. Desce pelo estrado e cai no tapete. Espalha-se pelo assoalho, pelas cortinas, chamuscando o globo de luz no teto.
Janelas. Todas muito bem trancadas. Completamente à prova de roubo.
— O senhor Victor não está em casa. Saiu hoje de manhã e ainda não voltou.
Edgar percebe que a velha traz entre os dedos uma caneca vazia. Sempre a mesma caneca. Talvez queira um pouco de café. Talvez apenas açúcar. Mas ela não diz nada e ele se sente mais aliviado assim. Por nada desse mundo entraria novamente no seu apartamento. Muito menos por uma caneca de açúcar.
— Anita, venha pra cama. Já passa das duas!
O senhor Olaf. Do fundo do quarto sua voz vem fraca, mas carregada de ansiedade.
Nisso o fogo já se espalha pelo resto da sala, invadindo o corredor.
Uma bola de luz dilui a silhueta de ambos, quase derretendo-as. Edgar sente certo constrangimento,
seu rosto enrubesce:
— Fique tranqüila, senhora Olaf. Não é nada demais. Sempre acontece quando estou fora de casa.
Ele me segue por toda a parte, percebe? Alguém se engana a meu respeito, compreende? Tudo isso}não passa de um mal-entendido.
A senhora Olaf, prestes a se ver incendiada, está tranqüila, muito tranqüila, mas um pouco arrependida por ter saído de seu apartamento. Encostada na porta, o fogo sobe por suas pernas, pelas meias de lã, devorando palmo a palmo também o seu velhíssimo pijama de algodão, seus lábios, seu cabelo.
Edgar, um pouco aborrecido, tenta salvá-la das chamas, dá um passo à frente, as mãos pra trás, um gemido rouco preso na garganta, mas então, antes de se contaminar com o toque da mulher, recua.
A senhora Olaf, visivelmente contrariada, volta a esconder a caneca no bolso do pijama.
Nada de açúcar esta noite.
Digam o que disserem as mexeriqueiras de plantão, o que mais a incomoda não é o calor que a envolve, não são as chamas que, devagar, vão derretendo sua aliança de casamento.
O que mais a incomoda nesse momento é a presença de Edgar, suas feições de ostra, seu hálito impregnado de álcool, sua voz roufenha. Também a exaspera nesse homem a total indiferença no modo como se veste, na maneira como se dirige aos outros, na forma como articula vogais e consoantes. Irrita-a a freqüência com que coça o cabelo ensebado. E o bafo! Ao falar, ele tem o hábito de aproximar tanto o rosto que é difícil não sentir repulsa.
— Anita!
O senhor Olaf já a espera na porta, impaciente. É tarde e ele ainda não voltou a se deitar porque o cheiro de queimado lhe é insuportável, corrompendo tudo ao seu redor, parede, armário, tapetes.
— É melhor que eu o deixe a sós. Tenha o senhor uma boa noite — despede-se de maneira azeda a senhora Olaf, respingando fogo aqui e ali, como quem diz: — O senhor é o bombeiro, não é? Então faça algo, não fique aí parado — isso ou qualquer outra coisa semelhante.
Edgar, no entanto, não chega a compreendê-la. A cera derretida nos ouvidos aumentou, e com ela a surdez.
— Boa noite, senhora Olaf.
Mais conformada, a velha senhora Olaf vira-se, dá um passo, dá outro passo, e começa a afundar no interior da escuridão. Quando a porta de seu apartamento se fecha, dentro inicia-se uma áspera discussão que logo é concluída. Fora, todo sinal da sua presença desaparece, exceto uma trilha incandescente deixada no corredor.

Nelson de Oliveira nasceu em Guíra, Sâo Paulo, em 1966.
Contista, romancista e ensaísta, Publicou Naquela época tínhamos
um gato (contos, 1988), O filho do crucificado (contos, 2001) e
A maldição do macho (romance, 2002),
entre outros. Em 2001
organizou a antologia Geração, reunindo os melhores contistas
brasileiros surgidos no final do século XX. Dos prêmios que recebeu
destacam-se o Casa de las Américas (1995), Fundação Cultural da
Bahia (1996) e o da Asssociação Paulista dos Críticos de Arte (2001).
O presente artigo integra o livro
O século oculto e outros sonhos provocados, publicado recentemente pela Escritura Editora - SP-
oliveira.e.cia@uol.com.br

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