Marché aux Puces

conto inédito de
Nelson de
Oliveira

Sandra Moreira
    Sandra Moreira

 

... sobre o encontro fictício (e cômico!)
entre o Santos-Dumont e o André Breton, em Paris.

 "Cogito, ergo sum", Alberto leu pela enésima vez. Esculpido no cabo de vários martelos de osso: "Cogito, ergo sum". No cabo de centenas de martelos fabricados pelo Homo habilis há dois milhões de anos. O Mercado das Pulgas é pródigo em prodígios desse tipo. Quantas cabaças e cabeças esses martelos teriam fraturado, as pulgas e os percevejos encharcados de cerveja não quiseram revelar. Alberto, o pensamento metido nas nuvens, meditava sobre esses ossos assassinos quando, opa. Puxão meio amarrotado de pigmeu marroquino na manga amarelo-manga do brasileiro:

— Meciê… Qué comprá um balão, qué? — quis saber o pai de família, refém das treze bexiguinhas coloridas que por bem ou por mal teriam que ser transformadas no peixe e no pão desse dia odioso.

Não. Alberto não queria. Já estava farto dos balões.

Paris. Apesar do outono, Paris. Apesar dos pesares do princípio do século e do vento meio tupiniquim meio francês, Paris Paris Paris sempre Paris. Foi aí que Alberto e André se conheceram. Ódio à primeira vista. Antipatia no Mercado das Pulgas. Disputa pela miniatura de Paris, maravilha encontrada por acaso entre mancebos de madrepérola e comadres de alumínio. Por puro acaso descoberta entre camarões de Bengala e bengalas de Camarões, pequineses de Havana e havanas de Pequim. "É minha." "Não, é minha." Briga braba pela misteriosa miniatura da Cidade Luz, perdida no movimento de minúsculas engrenagens, roldanas e alavancas. Alberto, olhos baços — "Eu pago xis!" —, abriu a carteira de couro, que recebeu o pontapé certeiro de André.

— Quem o senhor pensa que é? Sabe quem eu sou?!

— O senhor é quem pensa que é? Quem sabe eu sou!

Alberto, a magreza exata da certeza geométrica, do cálculo renal multiplicado pelo vetorial. O bigodinho, integral tripla forjada na bigorna. O quadril, raiz quadrada sob o quadriculado do casaco. As sobrancelhas, seno e co-seno coçando-se mutuamente. Não restava dúvida, Alberto estava furioso. Alberto, coberto de razão, espumava algarismos, dardejava perdigotos racionais e irracionais na testa do adversário. Cegado pelo dialético dilema da ação que exigia a devida reação, não reagia. Pois é, a devida reação… Que reação? Sei lá, qualquer reação, reaja, homem! De que jeito? Revida, dá o troco, ora! Tempo, preciso ganhar tempo, minha carteira, cadê? Ali. Onde? Caída entre as tralhas. Abaixou para pegá-la, espanou a poeira — eureca, capoeira! — e aplicou na cabeça de André o seu famoso rabo-de-arraia.

— Puta que o pariu!

— Tomou, papudo?

André, a consistência esférica e tranqüila dos pesadelos a céu aberto, dos campos magnéticos do amor louco. O cabelo, máscara moçambicana repartida em quatro. A barriga, balão atmosférico tirado das comédias de Mack Sennett. As orelhas, pratos em branco-e-preto perfeitos para o acorde final da Nona sinfonia. O doutor André abanava-se, bufando bananas e rabanadas. Abanava-se, pronto para operar ao deus-dará. Os punhos fechados, prontos para as futuras fraturas no queixo do engenhoso engenheiro, Alberto.

— Trouxe-mouxe!

— Txucarramãe!

No famigerado Mercado das Pulgas, trecos e cacarecos por todos os lados. E daí? Alberto e André só tinham olhos ouvidos nariz boca e mãos para a pequena Paris. Nela tudo era réplica. Cada passo dado na grande Paris repetia-se pé-ante-pé na pequena. Ah, pequenina Paris! Apesar das suas minúsculas mulheres de seda, dos seus reduzidos anarquistas de marfim, dos balõesinhos do sisudo Albertinho e dos poeminhas do jovial Andrézinho, Paris Paris Paris sempre Paris. Porque nessa Paris de dimensões mínimas outras dimensões se espalhavam. Para além da largura, da altura e da profundidade, o tempo. Não, meus amigos. Não o tempo presente. O tempo futuro.

— Physique du rôle!

— Châteauneuf-du-Pape!

Alberto apoiou as mãos na borda do tabuleiro, aproximou da colina de Montmartre os olhos leves de futuro aeromodelista, quase tocou o queixo na basílica do Sacré-Coeur. Do outro lado a sombra de André provocou terror e êxtase nos vasos sangüíneos da Torre Eiffel, nas articulações cartilaginosas do Teatro dos Champs-Élysés. Nesse minuto, no porvir miúdo da miniatura, o brasileiro e o francês viram a libélula alçando vôo no Campo de Bagatelle. "Zeus do céu, o homem voa?!" , murmurou Alberto sacando a lupa do bolso do casaco. "Voa Zeus, o homem do céu?!" boquiabriu-se André enfiando o seu olho esquerdo no olho direito alheio, que já olhava através da lupa. A libélula mecânica, mesmo voando baixo, transferia para a História esse pequeno outono em Bagatella. Alberto e André, a atenção estatelada nessa tela-adrenalina, nessa bagatela impressionista. Aqui ali acolá o povão uivava, chapéus ao vento: "Voilà, o homem voa!" Uivava, pedia bis. Apesar do outono, bis. Apesar do biplano tridimensional movido pelo motor Levavasseur-Antoinette de 50 hp, bis bis bis sempre bis. 14-Bis em Paris.

— Causa mortis!

— Sine qua non!

Cavalgando os cinqüenta cavalos alados, outro Alberto, o menor Alberto possível nesse princípio aerodinâmico de século. O Alberto da pequena Paris voava vinte, quarenta, sessenta trêmulos e minúsculos metros de distância. Voava rente ao chão, rente ao mesmo chão em que o nervoso outono naufragava. Voava para as décadas que ainda iriam chegar. Voava com a vida, voava para as batalhas aéreas das catalépticas grandes guerras, desaparecia sob a sombra meteorológica do Boeing 747 que eclipsava o sol de norte a sul, voava para o lado oculto da lua. Para o lado oculto da lua que era a íris do olho de André, do olho ampliado pela lente da lupa. No maiúsculo Mercado das Pulgas a miniatura de Paris ampliava o horizonte perdido, esticava a visada vertical de Alberto e André. Desprendendo-se do jardim lateral, o aroma das flores no cio — delirium tremens, long plays, sashimis — provocava overdose no ar viciado.

Em consideração aos pífaros da epifania, a dupla fingiu fazer as pazes.

— Vamos?

— Você primeiro.

A dona da miniatura de Paris, mulher do pigmeu que vendia bexigas, estivera esse tempo todo de olho nos dois possíveis compradores. Estivera de olho, ora se estivera! Literalmente de olho — afinal, tendo perdido o esquerdo no campeonato anual de dardos, sobrara só o outro, o único. Estivera de olho, a dona da miniatura de Paris, nos dois falsos ases da paz, que, a cabeça cheia de bagagem e os respectivos passaportes prontos para voar, embarcaram no perfume das alucinadas flores, rumo ao resto do mundo. Embarcaram, Alberto e André, inimigos íntimos: piloto reumático e co-piloto automático em tudo diferentes. O motor a mil, alçaram vôo sem serviço de bordo. É claro que por precaução Alberto levou escondido o seu pré-histórico "Cogito, ergo sum". Contra possíveis surtos histéricos do companheiro, o precioso martelo de osso.

Nelson de Oliveira nasceu em Guíra, Sâo Paulo, em 1966.
Contista, romancista e ensaísta, Publicou Naquela época tínhamos
um gato (contos, 1988), O filho do crucificado (contos, 2001) e
A maldição do macho (romance, 2002),
entre outros. Em 2001
organizou a antologia Geração, reunindo os melhores contistas
brasileiros surgidos no final do século XX. Dos prêmios que recebeu
destacam-se o Casa de las Américas (1995), Fundação Cultural da
Bahia (1996) e o da Asssociação Paulista dos Críticos de Arte (2001).
O presente artigo integra o livro
O século oculto e outros sonhos provocados,
publicado recentemente pela Escritura Editora - SP, que em 2004 publicou também
"Os melhores contos de Nelson de Oliveira - Pequeno Dicionário de Percevejos"

Esse conto pertence a um  livro ainda inédito, intitulado "Ódio sustenido"... escritura@escritura.com.br

 

voltar