O Rumor Da Noite
novo livro de Lêdo Ivo

Max S. Moreira*

ilustração: Julio Saens

 

  Eduardo Frieiro, em sua célebre, A Ilusão Literária, num ensaio intitulado Acerca da Originalidade, debate esta questão na literatura, defendendo que a verdadeira originalidade é tão velha quanto o homem e que nada tem a ver  com a pretensão de uns poucos iluminados que supõem que a poesia, a literatura como uma transcendência. Quando ao poeta, a tomar pelo exemplo de Lêdo Ivo, caberia a transmissão sobre uma relação verdadeira com o real.
   O poeta é o artista que deixa o testemunho de um encontro com o real, testemunho este que pode ser apreendido na obra seja ela um poema, um livro, a obra mesma no sentido da produção de uma vida. Real aqui refere-se à uma dimensão humana que resiste ao código ou à realidade mesma em sua amplitude, não totalmente redutível às palavras, e resta nos acontecimentos mínimos dos dias. A captura da realidade no texto poético, dada a impossibilidade de sua total apreensão, depende de um estilo, depurado durante toda uma vida.
   Este legado é fruto de uma persistência e do talento, sem dúvida, mas já que não nos cabe discutir um talento de traduzir momentaneamente, que seja, o intraduzível, destacamos a persistência do exercício poético em seu trabalho silencioso, sobre a realidade que, não raramente, parece resistir à poesia e à palavra. A persistência ensina ao escritor a conquista da poesia.
   O poeta aprende a espera e desenvolve com ela um senso de observação. Poesia não é necessariamente a idealização, permite também o que reside nas coisas efêmeras ou permanentes do cotidiano, como um bujão de gás abandonado no pátio. Isso Lêdo Ivo nos ensina, que existe um sentido humano, poético que abrange os fatos mais ordinários da existência.
   A poesia, parece nos transmitir Lêdo Ivo, é algo que existe pelo artifício humano da palavra, como um estado latente das coisas à espera de de/codificação, que daria coerência as coisas do universo de uma maneira, ao mesmo tempo reveladora e enigmática, muito além de uma teoria ela envolve a idéia com a cor dos sentimentos, efeitos da transmissão poética sobre o sentido. Mas, não se pode dizer tudo, bem sabe o poeta e por isto, talvez, pareça propor-se a escrever sobre tudo. Escrever sobretudo.
   Eduardo Frieiro nos diz, "O que interessa acima de tudo não é o particular, o novo ou o raro; não há nada particular nem no novo, nem no raro; o que unicamente podemos apreciar sem reservas é o geral, o humano, o efêmero individual que exprima uma realidade supra-individual e contenha elementos de eternidade. Quase diríamos: o trivial."
   É dessa posição de acurada sensibilidade de onde ele percebe e expõe que - no rumor da noite, no brilho dos carros sobre a jamanta, no encontro/desencontro entre pênis e vagina, no mundo que é uma representação ante os olhos sonolentos do trocador de ônibus- o poeta testemunha a incapturável e ainda assim, perseguida poesia. O que não o leva a recuar ou resistir ante a imperfeição, mas tomá-la como motivo, como deixou registrado em recente entrevista a Pedro Bial : "...procuro a imperfeição..." Assim, a poesia de Lêdo Ivo, longe de todas as convenções poéticas, sem porém desconhecê-las, longe também de ceder a uma crônica do cotidiano em seus poemas, silenciosamente, intimamente,  sussurra ao leitor, o paradoxo de uma obviedade inconfessável da vida, travestida em poesia.
   O Rumor da Noite, pouco badalado e mais recente livro de poesia de Lêdo Ivo, foi editado pela Editora Nova Fronteira no ano 2000, traz a reprodução do prefácio de Kerry Shawn Keys à Landsends: selected poems, a edição norte americana de 1998 de seus poemas.

 

Alguns dos poemas de O Rumor da Noite:

 

Peixes Frescos

 

No mercado junto ao mar os peixes se espalham
em provida oferenda, rodeados de dedos que apontam para
suas guelras e barbatanas
e de vozes que regateiam.
Todos estão cegos, embora seus olhos arregalados
finjam contemplar com espanto os rostos que se revezam
nos balcões que cheiram a maresia.
Nos brancos ataúdes de matéria plástica
e cobertos por uma mortalha de gelo
eles aguardam a morte verdadeira que só chega com a podridão
e sempre se esconde sob a escama dos peixes frescos
e a pele dos homens.


 

Urubus na Enseada

 

Um bando de urubus sobrevoa a enseada de Botafogo
E assusta os banqueiros que, no convés dos iates,
Seguem o sulco de espuma aberto nas águas.
Antigamente o mundo era mais poético.
Onde estão as neves de antigamente
E as gaivotas em revoada que encantavam os milionários
Como se fossem moedas de luz caindo do céu ?
Sob o sol de verão os banqueiros sentem frio.
Este é um tempo de aflição e não de aplausos.
Devemos aprender a ter medo mesmo aos domingos.

 


 

O Contrabandista

 

Nenhum poeta é obscuro.
Tudo o que ele diz é claro
como um palavrão num muro.

Mais claro que a luz acesa
é o poema mais hermético.
Pão matinal numa mesa.

Na noite misteriosa
nenhum mistério prospera:
apenas freme uma rosa.

Qualquer menino decifra
o soneto indecifrável
e o verso mais sibilino.

O poeta sempre diz tudo
quando se cala em seu nada.
É um contrabandista mudo

Na alfândega da vida.

 

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* Poeta e editor de Tanto

maxsilvamoreira@ibest.com.br

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