Mariza Salles
Mariza Salles

(Trechos)

Miràbilis e boninas
3
.
Em 1987, Zenóbia conheceu na rua uma mulher
que vendia palavras. Eram todas inventadas. Encantou-
se com "ilágrime". Comprou-a, sem alarde. Porém,
mais tarde, soube que essa era uma palavra roubada

 

As coisas delicadas
1.
Zenóbia diz que a lírica, e não a crônica, define seu
pacto com a vida e o sonho. Mas o trágico é o seu
phatos , o seu idioma subterrâneo. Não é na dor que
reluz o mundano. Mas atenta aos danos do patético,
ela busca também no úrico, no irônico, o estranho de
tudo. Sua luz, por isso, é de um branco quase castanho.
Ou da cor do estanho, esse metal macio e insone.

2.
Zenóbia sempre quis ir a Alhandra. Mas movida
pelo enigma do nome. Por imaginar que lá as coisas se
se ambandonam à revelia das próprias sombras. Que os dias
se alongam em ritmos unânimes, alheios ao encanto
das noites de outono. Seria uma cidade onde todas as
casas são brancas?  Onde as aves gralham sobre os ramos
de uma Nectandra saligna? Que lugares esse nome
torna possíveis?


Os amores de Zenobia
3.
Belmiro tinha uma curiosa hipocondria. Queria
todas as dores que não sentia para sobre elas escrever
poemas trites. Suas doenças eram o eclipse necessário
para que a poesia surgisse. E fim não havia que pusesse
termo naquele vício. Zenóbia, no início, tomaou tais
enfermidades como um capricho. Divertiu-se, por
exemplo, com os versos que ele fez um dia à luz das
alergias que o atacavam em noite de preguiça. Ou
com a ode iluminada pelas manchas que lhe apareciam
quando ouvia a valsa Mephisto, de Listz. Sua lista de
males era quase erudita. Para não dizer esquisita. Mas
aos poucos Zenóbia canzou-se daquelas sandices. Não
disse nada: deixou-o no primeiro solstício do ano. Sem
conflitos.

4.
Amâncio era um jovem de corpo médio e cor
intensa. Trazia no rosto algo de incisivo e inconcluso.
Seu dorso era dúctil e em seus olhos se via quase tudo
o que se passava no fundo. Zenóbia não teve dúvidas:
naquele homem estava o seu rumo, o resumo de seu
mais próximo e distante futuro. Previu que em breve
dele saberia de cor o desenho das unhas, a curva da
nuca, a trama das veias e os pelos das coxas. E que sem
ele o mundo duraria pouco. Em vinte e um noturnos,
escritos em oito noites de junho, celebrou desse amor
o sumo. E num dia de chuva, em meio a tuias e latânias,
descobriu com ele que há coisas (e pessoas) que não se
deixam nunca.

As horas felizes
3.
Zenóbia sempre quis ir à França. Em sua infância
chegou a traçar cidades, entre elas Arles, em desenhos
a lápis sobre folhas de papel almaço. Até que seu amado
Amâncio deu-lhe a viagem como lembrança de
aniversário, em março de 1974. De lá trouxe, além
dos ares, a memória das tardes nos parques e os traços
das fachadas claras dos prédios e das casas. Em Arles,
viu dois gatos numa escada. Brincavam de nada. Até
que a encararam, como se lhe perguntassem: que
acaso move seus pássaros?



Das amigas
1.
Cecília tinha tudo para ser louca, mas não era.
Embora de olhar um pouco sério, não deixava de ter
uma discreta ternura. Não é preciso fazer nada para
se estar na alma de tudo - costumava dizer a Zenóbia,
quando as duas se encontravam nas tardes fúteis. Pra
ela, se a morte era o escuro, a vida era relâmpago. Por
isso vivia sempre de relance, tornando bastantecada
minuto. Um dia, num impulso, pegou a mala e sumiu

no mundo. Até hoje Zenóbia não sabe se ela continua
viva, e lúcida.
4.
Zenóbia já definiu Cordélia como uma dessas amigas
que estão sempre aqui, mesmo quando não estão.
As duas sempre se entendem nos mais difíceis
desencontros e se reencontram com a mesma alegria
de antes. Cultivam, juntas, o amor pelos câes, as plantas
e os livros. Gostam de chá e de paisagens estranhas. E
acham um rebanho de ovelhas um encanto. Poderiam
ser irmãs se não fossem amigas. E sempre se dizem,
em silêncio, que uma amiuzade como essa dura para
além de toda a vida.


Maria Esther Maciel nasceu em Patos de Minas, Minas Gerais, em 1963.
Reside em Belo Horizonte desde 1981, onde é professora de Literatura da
Faculdade de Letras da UFMG. É autora de Dos haveres do corpo (Poesia, Ed. Terra, 1985) As vertigens da lucidez: poesia e crítica em Octávio Paz (Ensaio,
Memorial da América Latina, 1998) Triz, (Poesia, Oboró, 1998) entre outros.

memaciel@gmail.com