Julio Saens

A Transferência
Conto de Maria Cláudia Almeida Orlando Magnani

  Enquanto esperava o ônibus, nem ao menos percebi as cores, barulhos e odores da rodoviária. Transportei-me para a história de Zenília.Como em todas as noites, Zenília estava assentada a um canto da casinha de bailes, o olhar perdido no nada, vago e sem emoções. Nada esperava, Reinaldo jogava, fumava, e, invariavelmente, empurrava um bêbado qualquer para dançar com ela. Os cabelos loiros lhe caíam sobre os olhos azuis, sem brilho, sem que isto a incomodasse. De repente, pela porta principal entrou Epifânio. Ao vê-lo, sentiu uma dor pontiaguda no peito, tão intensa que pensou que iria morrer. Não se preocupou. Seria um alívio. Mal sabia Zenília, que era o prenúncio de uma dor infinitamente maior. Epifânio olhou tudo em volta. Pareceu olhar para ela. Não tinha certeza. Sem saber por que, ocultou a mão esquerda com aliança sob a direita. Os cabelos de Epifânio, pretos e lisos, às vezes caíam-lhe à testa, o que provocava um gesto charmoso de colocá-los no lugar. Os olhos castanhos, grandes e brilhantes traduziam uma mente viva, em plena ebulição. O nariz adunco, porém perfeitamente proporcional, se harmonizava com a boca pequena que, vez por outra, se abria num irresistível sorriso infantil de dentes perfeitos, que lhe fechava os olhos involuntariamente. À mostra no rosto sempre bem barbeado, longínquas cicatrizes de espinhas remontavam à uma não distante adolescência. Era jovem. Pouco mais de trinta anos. Seria talvez um ou dois anos mais jovem do que ela. Ao contrário dos cangaceiros que o acompanhavam, estava pouco armado, e bem vestido. Usava um terno sem gravata, bem talhado, e sem que fosse absolutamente necessário, consertava o paletó, de quando em vez, segurando-o para frente, enquanto se ajeitava na cadeira. Sua figura era especial, belíssima , envolvente. Tinha mãos delicadas, quase femininas. Zenília reparou sua aliança de casamento e voltou a esvaziar seus olhos de sentimento.
   Nas noites que se seguiram, Epifânio às vezes voltava. Até que numa noite, Reinaldo pediu que ele dançasse com sua mulher, Zenília se levantou, obediente, mas ao entreter seus olhos nos dele, não mais sentiu a si mesma. Foi tomada por uma vertigem, que não soube explicar, e ao final da música, fora de si, voltou tateante para sua cadeira. Os sorriso que Epifânio lhe dirigiu ao agradecer a dança acabou de arruinar a sua alma. Desde então, a imagem de Epifânio a perseguia dia e noite. Pela manhã, dolorosamente, era primeira visão que tinha, antes mesmo de abrir os olhos. Ao se deitar, ainda contemplava aquele espectro, e todos os seus atos se voltavam para ele. A cada dia, o sentimento crescia dentro dela, e lhe sobrevinham dores diversas, diarréias e vômitos além de hematomas por todo o corpo. Ao se conscientizar do amor tão devastador que a tomava, sofreu horrivelmente. Emagrecia a olhos vistos. Um amor assim, coroado de desesperanças, tinha a força de um apocalipse. Depois das perdas concretas da sua filha e do seu útero, por doenças que Reinaldo transmitira, surgia agora este amor, abrindo para ela as portas crepusculares do tempo das perdas anunciadas. Epifânio passou a não vir com tanta freqüência. Apenas nas segundas-feiras. Para Zenília, a semana se arrastava como se arrasta o tempo da tortura. As segundas-feiras pareciam prometer algum alívio com a visão de Epifânio, mas acabavam se tornando noites do mais profundo desalento e da mais rotunda solidão. Às vezes, pensava que a única coisa que queria era que ele soubesse do seu amor. Que acreditasse nele. Quando se permitia algum pensamento mais ousado, achava que, se fosse minimamente correspondida num abraço, poderia viver o resto de seus dias com a lembrança deste momento. Mas, invariavelmente, no final da noite, diante de todas as impossibilidades, Zenília queira muito mais: morrer nos seus braços como uma criança tísica e pagã, sem culpa e sem perdão.
   Reinaldo, o velho e rico tropeiro, com quem se casara por força do Tio Padre, que substituíra seus falecidos pais, era o mais grotesco dos homens. Não percebia qualquer sinal de atividade pensante em seus olhos. O corpo mal cuidado e mal cheiroso ferira de morte o corpo e alma de Zenília, inocente, ainda, de que esta não seria a dor maior de sua vida. A menina inocente e cheia de sorrisos deu lugar à mulher sofrida, estéril e só. Nem por isso menos bela. Tinha na sua infelicidade algo de surpreendentemente sedutor. Como se a constante ausência nos seus olhos a recobrisse da aura do intangível e inescrutável. Nada, naquela mulher, que se mantinha em pé como uma rocha, insinuava que ela precisasse de uma dor maior em seus dias. Por zelo do destino, equívoco das parcas ou por intencionalidades inatingíveis, a dor maior veio até ela num misto de Tânatos e Eros, tomando a um tempo seu corpo e sua alma.
   Zenília adoecia, Reinaldo indiferente, partiu com a tropa numa manhã fria e coberta de névoa. O som da sineta da madrinha da tropa se distanciava, e marcava, ao longe, o compasso do coração de Zenília. Não tinha com quem conversar. Quando lhe sobrevinha a febre, encolhia-se em posição fetal e repetia o nome de Epifânio infinitas vezes entre lágrimas quentes e calafrios. A certeza de não ser amada, tão comum em sua vida, doía agora no estômago, inflamava os intestinos. As manchas roxas da angústia se espalhavam pelo corpo. Nesse torpor, entre a morte e a vida, voltava sempre à casa de baile, à procura de uma visão que a acalentasse. Mas já não sabia se sonhava, ou se realmente se levantava. No seu infortúnio não sabia como era possível amar tanto um homem que não conhecia. Havia algo dela mesma nos olhos de Epifânio que a chamava, e que, ainda que ela não percebesse, poderia levá-la acima e além das normas e dos interditos, além da vida e da morte, além do bem e do mal, da miséria corpórea, das cisões anímicas, das feridas narcísicas e de todos os mistérios dolorosos. Havia no sorriso de Epifânio algo da suavidade perdida dos primeiros anos da infância. Ela via o seu sorriso. Aquele sorriso não era sonho. Na ausência de Reinaldo e, durante o delírio de Zenília, Epifânio e seus capangas sequestraram-na. Ao lado dele, Zenília percorreu as veredas do grande sertão mineiro. Seu nome foi proscrito da família durante décadas. E só muito recentemente, a minha geração soube da sua história e da sua existência. Identifiquei-me tanto com ela ! Procurei-a e nos tornamos amigas.
   Acordei dessas lembranças com o barulho do motor do ônibus. Zenília desceu com certa dificuldade acumulada nos seus oitenta e poucos anos. Olhou-me com toda a profundidade do azul dos seus olhos agora rodeados pelas marcas do tempo. Um vento forte desarrumou seus cabelos brancos. Ela me abraçou, e neste vento abraço senti como se algo de sua alma se transferisse para a minha. Com um sorriso enigmático, ela disse: Esta dor agora é sua. Sem Epifânio não faz mais sentido.
    E Zenília pôde viver em paz.
    Não me demorei a perceber do que se tratava. A dor de Zenília, agora minha, invadiu-me sem escrúpulos de me destruir. Nada em meu organismo podia duvidar: a dor era minha. Neste amor sem Eros, Tânatos envolveu-me todo-poderoso. Não resisti. O meu Epifânio jamais me sequestraria. Definitivamente, jamais morreria em seus braços por mais que assim desejasse. A minha dor é longa e profunda, porém árida e sem doçura. No estertor em que se transformou minha sobrevida, é inegável que diante da carência de causas que o valham, morrer de amor estará então de bom tamanho.

* * * *

Maria Cláudia vive em Diamantina, Minas Gerais, onde leciona filosofia na Fafidia.

voltar