Luiz Edmundo Alves
comenta o novo romance
de Luís Giffoni

 

Capa do livro - reprodução  Não basta apenas escrever contos, romances e poemas, é preciso dar-lhes tratamento literário e artístico, imprimir estilo. Escrevo pra falar um pouquinho do prazer singelo que tive ao ler  o último livro do mineiro Luís Giffoni, Adágio para o Silêncio. Um romance no sentido clássico, conjuga  com simplicidade e elegância elementos estritamente necessários para se contar um boa história: enredo se delineando não apenas na apresentação dos fatos mas principalmente no mundo subjetivo das personagens. Giffoni tem o domínio técnico da linguagem, uma tal precisão na construção narrativa que, desde já,   me arvoro a dizer que este é um grande livro, e  quem o escreveu só pode ser um escritor genial. Genial no sentido artístico, aquele que concebe uma obra célebre, instigante, dotada de senso estético, de poesia e imaginação.
  Adágio para o Silêncio é  um vasto quadro humano que se desenvolve em torno do velório de um velha matriarca, a indefectível Dona Telinha. Sua eclética prole, netos, marido, genros e desafetos, reunidos  no velho palacete vão sendo apresentados ao leitor em ritmo fluente. Simultaneamente revela as complexas relações entre cada personagem e monta o cenário onde a trama se desenvolve: a metrópole mineira Rio Verde, onde a morta exerceu significativa influência política e social. O ritmo fluente  é uma caracterísca que permeia todo o romance, assim como o humor corrosivo que se deixa sentir até nos momentos de clímax dramático.  O narrador narra  com naturalidade, comunica-se com o leitor de forma  espontânea, trazendo à tona  revelações passadas que elucidam ou justificam o presente. Do ponto de vista formal merece destaque os momentos onde o narrador cede lugar a Henrique, marido de Dona Telinha. Henrique não apenas relembra o passado, mas queixa-se da velhice,  reconhece suas   fraquezas, suas limitações de mascate que se enriqueceu à sombra de Telinha. Faz duras e tristes reflexões sobre  seu comportamento  patético, parasitário mesmo, frente à vida e às ambições da esposa:
" Eu era inculto, Estela, mas era bonito. Bonito o bastante para ser exibido, bonito para ser cultuado por sua libido, bonito para lhe dar filhos bonitos. Tinha os olhos azuis que você tanto admirava, que provocava inveja em seus olhos escuros tão comuns. Trocamos beleza por ascensão social. Eu a satisfiz, você me fez crescer. Você me cobriu com um nome, eu a cobri na cama. Quem afinal foi coberta de quem? "
  Outro personagem denso e interessante é Rosa, uma criada que tudo sabe e tudo vê, guarda segredos, é da família e não é. Sua preocupação básica é servir, e alimentar todos. Cumpre à risca a recomendação que a patroa lhe fizera, muito antes, para que houvesse fartura na vigília e no velório. Rosa é sobretudo  fiel à memória de Dona Telinha. Assim dezenas de personagens vão se desenhando,  há a milionária excêntrica e autoritária, o médico de família, o padre, o desafeto número um , o homosexual  ressentido, este peça central de um pavaroso crime ocorrido em sua juventude, envolvendo Telinha e Rosa, o ex-viciado, o sempre ausente, o primogênito querido, o adolescente com hormônios nas alturas, o genro avarento, um cão ranheta   de nome Rex e um gato siamês vesgo e independente, conhecido como Sísifo. É  a tradição novelística ganhando tratamento literário.
   Giffoni é um escritor exercendo o domínio pleno da arte de narrar.   Descreve os exteriores com muita precisão, mas é nas descrições subjetivas que reside as maiores qualidades do romancista, nestes momentos sobressai-se um texto contudente, destilando as agruras universais da alma humana, o narrador abre espaço para a poesia e  é aí que o grande observador produz parágrafos dignos da nossa melhor literatura:
"Deteve-se no ar, acordou, perdoou-se e perdoou a mulher pelo interesse na união, não encontrou outra saída para o amor. Trouxe-a ao piano, bela e doce como a fantasiava nas ausências. (...) Acompanhou a tecla que afundava sob o dedo, ouviu a primeira nota, outras se despregaram das paredes, dos cantos, da penumbra, da cortina, da caixa do carrilhão, retornaram pela única janela do espaço e do tempo, invadiram o ambiente e recompuseram o Adágio".
   Ao final da leitura é como se tivéssemos reconhecido um velho mundo, a família de Dona Telinha e Henrique é um retrato muito bem construído da nossa velha e boa aristrocracia, da criada Rosa ao gato Sísifo, dos protegidos aos desafetos, dos pequenos pecados aos grandes crimes. Aí estão desenhados todos esses aspectos. Uma boa história contada sob a tinta e o esmero de Luís Giffoni. Grande livro!
"..em silêncio os derradeiros relâmpagos tremeluziram no horizonte, pequenos cogumelos de luz que se acenderam a cada segundo. Aquário surgiu sobre os cafezais do leste".

Adágio para o Silêncio - Luís Giffoni
Editora Pulsar - Belo Horizonte
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fone: (31) 3221-3284

Luiz Edmundo Alves

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