conto

Ocultação de cadáver

 

Jorge Fernando dos Santos

 

Meu compadre Juventino perdeu a sogra no mês passado. Na verdade, tudo aconteceu de repente, enquanto aproveitava a baixa temporada primaveril para curtir as férias no litoral capixaba. Aliás, esse fato muito o teria alegrado, não fosse as condições em que ocorreu e a surpresa reservada para o final da história. Para início de conversa, ele não queria levá-la com eles. A velha não sabia nadar, detestava sol e, sempre que ia à praia, passava boa parte do tempo reclamando do calor e do forte cheiro da maresia. Tinha alergia a camarão, não bebia água de coco e o criticava sempre que ele pedia uma cerveja. Mesmo assim, minha comadre não abriu mão de levá-la com eles. Afinal, sempre fora uma boa filha e, agora que a mãe era idosa, não seria justo deixá-la sozinha em casa, enquanto ela, o marido, a filha e o neto iam descansar em Guarapari.
No sexto dia de permanência na casa de praia alugada, a velha simplesmente não acordou. Juventino estranhou o fato. Nos dias anteriores, ela sequer havia esperado a cantoria dos galos da vizinhança para saltar da cama e acordar todo mundo. Primeiro coava o café e depois saía batendo de porta em porta, dizendo "bom dia!" e avisando que os primeiros raios da manhã é que fazem bem à saúde. Naquele dia, eles perderam a hora. O cheiro de feijão cozido da casa ao lado já impregnava a atmosfera quando o neto de Juventino saiu da cama e foi até o quarto da bisavó. Foi ele quem deu o alarme. Pelo jeito, ela morreu dormindo e isso acabou com as férias da família.
Passado o desespero inicial, minha comadre sugeriu que deveriam chamar a polícia e conseguir autorização para transportar o corpo até Belo Horizonte. Juventino, que sempre teve o pragmatismo entre suas principais qualidades, resolveu diminuir os aborrecimentos. "Vamos transportá-la no reboque, junto com a bagagem e as sombrinhas de praia", sugeriu. A princípio, a mulher não concordou, mas ele conseguiu convencê-la de que essa seria a medida mais sensata. Assim, viajariam imediatamente de volta para casa e já no dia seguinte poderiam sepultá-la no jazigo da família, no Cemitério do Bonfim. Fizeram as malas rapidamente, enrolaram o corpo num lençol e o colocaram no reboque. Meia hora depois, já estavam na BR-262. A idéia inicial era vir direto, mas como ainda não haviam almoçado, Juventino teve que parar numa lanchonete à beira da estrada para fazerem um lanche rápido, ali por volta das duas da tarde.
Tal não foi a surpresa da família ao retornar ao carro. O reboque havia desaparecido e com ele toda a bagagem e o corpo da matriarca. Minha comadre desmaiou no ato e Juventino não teve outra saída senão pedir ajuda ao dono da lanchonete. Este ligou para o posto mais próximo da Polícia Rodoviária Federal e, pouco depois, uma viatura chegava ao local. Ajudado pela filha, Juventino conseguira reanimar a mulher, que foi logo contando tudo aos policiais. Ela mal terminou seu depoimento e o sargento que comandava a viatura informou que todos seriam detidos, acusados de ocultação de cadáver. Foram conduzidos à delegacia da cidade mais próxima, onde as mulheres e o menino foram logo liberados. Juventino virou a noite numa cela da cadeia pública, cercado por meia dúzia de maus elementos. Na tarde do dia seguinte, recebeu pelo celular um telefonema da esposa. Ela soluçava de alegria, explicando que ele já podia ser liberado. Sua mãe havia chegado em casa vivinha da silva. Quem roubou o reboque levou apenas a bagagem e o abandonou num posto de gasolina, com o suposto cadáver dentro. A velha acordou do sono cataléptico e pediu carona a um caminhoneiro, que fez a gentileza de levá-la até em casa. Juventino amaldiçoou a própria sorte e, só de pirraça, pediu ao delegado para passar o resto da semana no xadrez.

* Este texto integra a coletânea "Todo mundo é filho
da mãe"
, a sair pela editora Ciência Moderna

Jorge Fernando dos Santos é jornalista, escritor e compositor.
Trabalha no jornal Estado de Minas como editor do Núcleo de
Revistas e Suplementos. Publicou 18 livros, entre eles "Palmeira Seca" (Prêmio Guimarães Rosa), adaptado para teatro e minissérie pela Rede Minas. Deste trabalho resultou uma trilha sonora em parceria com Chico Lobo e Valter Braga. Também produziu o CD "Belôricéia", que reúne parcerias com Angelo Pinho e Clésio Vargas na voz de Helena Penna e convidados. Sua homepage é  www.jorgefernandosantos.hpg.com.br

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