O romance na pós-modernidade

                                Jorge Fernando dos Santos *
 

        Os arautos da chamada pós-modernidade profetizaram a morte do romance
como gênero literário. No entanto, autores como o argentino Ricargo Piglia, o
português José Saramago e o mineiro Antenor Pimenta são alguns dos
romancistas que contrariam a tese. Com suas respectivas obras, eles não só
mantêm viva a forma romanesca, como também a renovam, cada qual com seu
estilo.
        O problema do romance contemporâneo não está mais situado na esfera da
originalidade, pelo menos no que diz respeito ao tema abordado. Em
"Dinheiro Queirmado", por exemplo, lançado pela Cia. das Letras, Piglia nos
faz lembrar da novela "É Sempre Noite", do francês Leo Malet, aludindo
também aos filmes de Quentin Tarantino. Já com o romance "O Último Aurélio
ou o Cadáver Adiado", publicado pela Rocco, Antenor Pimenta apresenta uma
narrativa que aponta seu parentesco estilístico com "Cem Anos de Solidão",
do colombiano Gabriel García Márquez. A exemplo de Saramago, Pimenta
desenvolve uma narrativa que tem uma de suas raízes fincadas no barroco.
        Longe de desvalorizar a obra em questão, esse tipo de referência demonstra
que a história que se conta, não importa qual seja, já foi contatada e
recontada inúmeras vezes por diversos autores em vários países em
diferentes épocas e das mais variadas maneiras. Hoje, numa visão
pós-moderna da arte, o que importa é como o autor realiza sua obra. É
justamente no manejo da palavra escrita que se situa a grandeza da arte
romanesca nos tempos atuais. Fora isso, qualquer outra consideração de
ordem estilística já não tem tanto sentido fora do enfoque acadêmico.
        O próprio advento da informática com todas as suas inovações, que vão da
Internet ao livro eletrônico - tecnologia que já está sendo industrializada
nos Estados Unidos - nos obriga a repensar vários conceitos sobre criação e
criatividade, ética e estética, plágio e originalidade. Talvez isso nos
leve a compreender melhor o que o gênio Guimarães Rosa quis dizer ao
declarar que o importante não é o escritor, mas a escrita. Na visão de quem
nos deu "Grande Sertão: Veredas", um autor é apenas uma sombra a serviço de
forças superiores que muitas vezes até ele mesmo desconhece.

     Jorge Fernando dos Santos é jornalista, escritor e compositor.
Trabalha no jornal Estado de Minas como editor do Núcleo de Revistas e
Suplementos. Publicou 18 livros, entre eles "Palmeira Seca" (Prêmio Guimarães Rosa),
adaptado para teatro e minissérie pela Rede Minas. Deste trabalho resultou uma trilha
sonora em parceria com Chico Lobo e Valter Braga. Também porduziu o CD "Belôricéia",
que reúne parcerias com Angelo Pinho e Clésio Vargas na voz de Helena Penna e
convidados. Seu site na internet é www.jorgefernandosantos.hpg.com.br
 

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