Sylberto Sette
                                             Sylberto Sette

HELENOS

JAIRO BATISTA PEREIRA

(A cinética poesia
de Mauro Faccioni Filho)

Helenos, livro de poesia do poeta, engenheiro e cineasta catarinense Mauro Faccioni Filho, marca pelo movimento cinético e estranhamento. E isso ocorre tanto no conteúdo, quanto na forma dos poemas.
   Editado em 1998, pela editora Letras Contemporâneas, sob o comando de Fábio Brüggemann e Péricles Prade, a obra encontra-se esgotada e apenas disponibilizada pelo autor na internet.
   O livro traz em epígrafe, a tradução de um poema de Jorge Luis Borges, feita pelo autor. O poema chama-se Arte Poética, e traz versos que denotam o eterno retorno da poesia. A poesia que nunca morre e retorna com a aurora e o ocaso.
   Entrando em HELENOS damos de cara com Areílico morto pelo filho de Menetes. "Abre-se o fosso no caminho do Hades/ um a um os heróis se retiram às sombras/onde não tardarão a encontrar a nova luta/no primoroso verso de um poeta brônzeo"
Não me engano quando constato que esse livro de poemas é um quase-roteiro cinematográfico, na maneira im-expressionista de condução/movimento das cenas/poemas, sua matéria e significação.
Homero, divisa um poeta no tempo. Homero no tempo a divisar um poeta que lhe retorna convicto de linguagens novas. Sedento do sangue das deusas e heróis despojados nos campos de batalhas. Homero não morreu. A poesia não morreu e retorna homérica no tempo, no vento. Homero o paradigma da poesia repartida na face da terra. Todos sofremos a carga inconsciente do poético, que atravessa os séculos. Há muito de grego e romano na tradição poética do ocidente. Essa riqueza órfica transcende as mais atentas consciências (não como defeito mas como importante contributo) e vem somar a lira contemporânea, como no caso de Helenos. Helenos, um livro que já nasce clássico, pela diferença que faz, na poesia brasileira posultramoderna. Nada a ver. Nada a dever, a santos, deuses e tempestades. Nada e tudo ao mesmo tempo. A poesia de Mauro Faccioni Filho, deslumbra pelo rompante da linguagem, dos cenários, da movimentação dos corpos, das almas, das armas, da empática destreza de estar deslocado no tempo e em tantas personas. Eis o poder do poeta que adentra espaços sagrados para extrair dali a matéria mais rica do seu dizer.
Pretensiosa na significação, sua poesia, almeja mundos na ponta da lâmina de prata, a adaga lampejante do verbo novo, que é o enfoque contemporâneo ao tema antigo. O ponto de partida inusitado e franco, que só o poeta contemporâneo na rede de interferências/referências, pode tomar e toma.
Vencer, perder, sonhar, lutar, empunhar as armas, honrar os mortos em batalha. Essa a voz poética que o território greco-romano, nathuralmente provocado, da poesia do Mauro F. Filho apresenta. Uma poesia de alta inspiração e retorno a raiz da raça "meus irmãos clamam, e vamos juntos/aos que sobrarem da luta, cobrir de glória/aos outros, descer aos campos do Hades/que a tudo engole e aos sonhos devora".
No sistema nervoso central da poesia de Helenos, está a batalha. O amor que os homens nutrem pela luta. "amo sobretudo as batalhas/seus longos preparativos/e a chama de olhar nos olhos/contar entre nós os que sobraram/honrar em lágrimas os desaparecidos".
O sentido da luta, é o sentido do próprio viver, eis que viver é lutar obsessivamente contra as forças ocultas da nathureza, e o poeta assim prescreve no poema Primeiro vieram e arrancaram sua casa: "desde seu ponto perdido na terra/procurou o que explica o sentido da luta/seu gesto inglório e a esperança inútil/a razão de si em seu momento de luto".
Nesse território sagrado de Helenos, onde a poesia de Mauro Faccioni Filho se assenta, existe luta, muita luta, vencidos e vencedores, heróis anônimos, nomes que passam com o vento do deserto. "que venham as ondas apagar imagens/desenhos turvos, a expressão incompleta/que passe o amanhã e passe o depois também/passem os nomes com o vento do deserto".
Alvo livre o coração do sol.
Em Quando os guerreiros dão-se trégua, iniciam os jogos olímpicos, e uma outra realidade se estabelece na vida e no poema: "nada de sangue, nada de lágrimas/o que é dor e guerra pode esperar/a poderosa lança é a mais distante/cujo alvo livre é o coração do sol".
Do amor, da morte, suas faces no tempo, nada ficou de fora da poética proposta pelo autor, e em Assilikis troca bilhetes com seu futuro amante, vê-se: "Arrumo as mechas, mergulho no frio/empunho os batidos seios para a aurora/ao lado do amor há o vento da morte/cantarei um poema, só desejo dormir".
Mesmo com a boca cheia,
poema híbrido de gozo e dor, de corpo se prostituindo, de corpo que se dá e vende-se, o furor do prazer sobre todas as coisas, eros e tanatos reinvocados: "arrancarei todos os cabelos/gozando aos uivos e às bofetadas/e me jogarei sobe meus restos/e mais cinco moedas prateadas".
Amor e perdição. A louca selvagem vinda da fábula – o sexo virado fabulação. O poema Deite-se na cama convida a passividade do outro. O outro que será objeto dos muitos desejos. "baterei como uma louca/uma selvagem vinda da fábula/serpentes pelo pescoço..." Belíssimos esses versos do poema, trazendo alto poder de imaginação do poeta, que busca na raiz da raça, como entendi e mencionei acima, a matéria do seu poético. O poeta é mais que lutador na poesia de Helenos, resolve-se mártir de sua causa íntima. "saúdo este resignado poeta/mártir de sua causa íntima/algumas facas moças poemas/versos e esperança íntima".
Helenos
não é livro de leitura fácil e rápida. Há de se perquirir, isolar, trafegar pela floresta dos símbolos híbridos de sóis e luas que o poeta nos oferece. A primeira paisagem poderia ser até bucólica, não fossem as espadas, as mortes, as lutas fratrícidas, o profano das relações, quando a mulher também comparece no usufruir da vida em sua completude. Há também o território de sombra e lusco-fusco, onde os objetos surtem miragens, ser e não-ser, estar e não-estar, no mundo entre as coisas. "a aventura de buscar onde não foi buscado/a tentativa de afirmar em si o não firmado/viu no meio da mata o que não se havia visto/o caminho a ser seguido onde nada era seguido." Aqui é o típico caso do caminho do sem-caminho, do ser que não sabe claramente onde ir, seguir... procurar e firmar o que não foi procurado, firmado. Essa a condição a que se resume a vida do próprio poeta, na sua luta inglória com os signos. A busca da voz única, a infinitude dos objetos, os movimentos do tempo, o espírito que quer, prefigura, desanima e repercute. Gênio das imagens inusitadas, o poeta é o arquiteto de catedrais em meio aos ímpios. "o gênio arquiteto das imagens/ergueu a catedral em meio aos ímpios".
Logo mais, em Barba de anteontem camisa amarrotada, o poeta sentencia que a grandeza e miséria andam sempre de mãos dadas, como elementos contrários que se encontram nos extremos para enriquecer a vida. Vida "esta é a arte, esta visão do mundo/grandeza e miséria nós de mãos dadas". O nós remetem aos conluios, aos elementos complexos, diferentes, unidos, conciliados numa mesma estrutura, assim como é o próprio Helenos em sua urdidura de signos.
Numa poética assim de opostos trançados como cipós-fios no tempo, difícil ao mais compenetrado exegeta, arrancar daquele território/espaço, as fibras orgânicas, os tecidos claros de significação. Tudo translude e transluz, na poesia de Helenos, iludindo assim o olho que vê, em pleno favor da criação livre do poeta, que não restringiu o ímpeto diante do desafio que se impôs: dizer o dito retornado, a voz das pedras antigas de Grécia e Roma, nos condutos, órgãos projetivos de sua visão e raça: "mas o tempo não dá tréguas/embaixo da terra outras idéias/brotaram de sementes antigas/dizendo:retornamos retornaremos".
O Mauro Faccioni Filho é poeta que faz realmente brotar de sementes antigas muitas idéias novas, e a poesia rigorosa de linguagem.
O domínio da língua e as projeções do sujeito/criador, são de fácil visibilidade na obra, formada a estrutura poética com a máxima intensidade, labor, estética.
Em Uma jaula, poema-vanguarda, dá pra se dizer, o poeta abre a linguagem contemporânea livre, de pleno rigor imagético, síntese e precisão semântica: "uma jaula: o trio dos tigres tristes/quer ser mas sempre falha/circo aberto:/sílaba interna da palavra/que ao picadeiro se espalha."
Não tenho dúvidas quanto ao poeta alardear suas imagens com a fúria dos destrambelhados. Esses os necessários no orbe da poesia. Loucos de todo gênero, poetas inventores de linguagem na mais perfeita afirmação poundiana, contra os beletristas e diluidores. Em Helenos, há o fanopéico, melopéico e logopéico, transmixados todos no ímpeto do dizer que acelera o batimento cardíaco, ilude, prestidigita o conhecimento dito e transita os muitos tempos no tempo. De Grécia antiga com suas lutas fratrícidas passamos ao contemporâneo livre. Homero versado de Pound, Whitman, Fernado Pessoa, vozes da modernidade, crescidas no vento.
Lembrando Walt Whitman, na biografia escrita por Paul Zweig, também agora vemos em Do rio interminável/Piso exato sobre teu passo, algo de metempsicose, de passos que passam sobre os próprios passos. No poema de Whitman eram os pós (corpo do poeta morto) que aderiam sob a sola da bota do outro no tempo. No caso de Helenos, na voz plural de Mauro F. Filho é: "piso exato sobre teu passo,/sobre a marca gasta mas rígida/caminhando em um só caminho/que o teu passo fez e o meu refaz".
O poeta dança com as imagens, palavras, sentenças, em Ele teve sua época de belo, adentra a seara do estético. O estético que se confunde com a própria essência da poesia, o lustro/brilho da linguagem que ao mesmo tempo nucleariza a significação e se faz conteúdo: "o belo nunca é passado/mas o sonho borrado e turvo/numa noite do futuro". O belo como a encarnação do sonho no futuro, o sonho que nunca é de vir claro, divisado nas particularidades, mas denso e sujo, turvo e complexo, como certos signos.
Poesia, é sim, processo de auto-conhecimento. As linguagens induzindo o sujeito no caminho do sem-caminho. Pedras que vão se identificando. Imagens, rostos, vertigens, na velocidade do tempo. O conhecimento do nada-ser. O salto repentino no abismo: "para descobrir o que temos no umbígo/eu não sou você, nem ele, ninguém/resto de esperança que não digo/não vamos? Então vou só/descer é tão fácil que não ligo".
Em Descobri após os trinta anos, o poeta destina, desatina, a que as palavras igualem, aspirem ao labirinto. O labirito é o poema. A vocação teleológica da palavra, que nunca deve trazer uma só face chapada, mas de forma cubista transfigurar muitos sentidos. "olhando ao lado resta a literatura/solitária próxima, eis a dor/mas a um poema que nada tem/senão prosa, palavras igualem/aspirem ao labirinto...".
Quase ao final do livro em Nossa decadência começou, é de se matar o que não morreu, calar-se: recolher o ímpeto selvagem da criação. Decadência, a voz retornada pra dentro. O NADA prevalecido de nada sobre todas as coisas. Essa a plena decadência, que é um não-fazer, não-sentir, não-pensar, onde o discurso trunca e se recolhe. "onde houve uma alegria, secou/nasceu uma fonte salgada/que para o mar não deu/melhor é calar a boca/matar o que não morreu".
Noutro poema, o tempo, o tirano implacável, aquele que corre pra trás e não sabíamos, comparece em sua horrível indiferença. O tempo, indiferente ao homem, sua luta e seus caminhos. "cruzamos os mesmos caminhos/luta triste e sem glória/a nós o tempo desconhece".
Em !Como já estamos pálidos e perdidos, o poeta refaz imagens de um mundo exterior mezobucólico: cavalos no campo, plantações, tudo a que guarde o tempo eterno na lembrança. Tudo o que é apenas sombra e passagem. Passam na vida, os homens, as coisas, os objetos, na social indiferença do tempo.
No poema Não era nada e perguntou, a filopoética de Mauro F. Filho se estabelece nathuralmente, belíssima no clima criado do encontro do homem/poeta consigo mesmo na imagem refletida no espelho. Poesia com filosofia, aliás algo de muito a ver com a Grécia, e a origem da própria linguagem (palavras) que no seu existir dependem da significação, (o conceito além da imagem fônica) que se confunde com importante objeto/função da filosofia, que é criar conceitos, significar, entender, ampliar, o significado/entendimento da vida e das coisas.
Reflexo do reflexo no espelho. Quem sou? Conquista – espaço – conhecido e desconhecido – a aventura humana no mundo dos signos. Um dos mais belos poemas do livro, o cunho filosófico do objeto conhecido, não vem com ranço de tese acadêmica, mas com os elementos indispensáveis ao processo do conhecimento: sujeito x objeto. "não era nada e perguntou/ao espelho, quem sou/reflexo do reflexo sobre/lâmina da água ou gelo..."
Correrá o rio interminável,
correrá com as palavras aptas a angariar o mundo. "haverá um broto alheio e estranho/que guardaremos na memória feito o momento fugaz/de um gesto, um lance/um íntimo/e tu dirás:é o ponto/de tua anônima alegria". Muitos brotos alheios e estranhos haverão de ser encontrados pelos caminhos, como a poesia desse Mauro Faccioni Filho, extratos tirados da raiz da raça, vertidos dos labirintos da imaginação criadora.
Os poemas de Helenos, como cinéticas aparições, invadem a mente do leitor, num movimento que não é próprio dos livros de poesia, mas de filmes. Filmes que o Mauro Faccioni Filho provavelmente realizará no futuro do futuro do Brasil, na condição de poeta pleno que é.


JAIRO PEREIRA

Nasceu em Passo Fundo-RS. Formado em Direito pela PUC-PR, reside à 16 anos em Quedas do Iguaçu, oeste do Paraná. É advogado, poeta e pintor protonathural. Editou de edição do autor, os seguintes livros: O artista de quatro mãos –contos-, O antilugar da poesia –manifesto poético-, Signo de minha prática –poesia-, Meus dias de trabalho –poesia- e o romance/ensaio O abduzido, 584 página, pela Editora Blocos do Rio de Janeiro. Tem vários livros inéditos e está para lançar no mês de dezembro/2002, o livro de poesia Capimiã, edição da Coleção Ruptura Réptil, da Editora Medusa.

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