Covent Garden Piazza em Londres
Cartas da ilha:
Quem viu quem?

Felipe Fortuna

LONDRES - Toda semana, a revista Time Out humilha quem procura acompanhar a programação de Londres. Ao longo de quase duzentas páginas, apresenta praticamente tudo o que acontece na cidade, de um passeio guiado pelos cemitérios até um curso de autodefesa para gays; da apresentação numa pizzaria de um grupo de jazz do interior do país à hilariante peça de Al Murray intitulada O dono do pub; do jogo de cricket à estação de rádio que reprisa as falas do maior intelectual islâmico, Edward Said. Obviamente, atrações como o British Museum e a Tate Gallery continuam impávidas, e são de graça. Concluo que um fã de concertos de violão não conseguirá estar presente a todas as apresentações do instrumento numa semana em Londres.

A revista, portanto, tripudia e subjuga o mais dedicado ativista cultural. Diante de tanta fartura, deixou até mesmo de publicar, por motivos que desconheço, uma coluna que tratava de sexo com desenvoltura típica dos países regulados pela Common Law. Porém, na seção dedicada a assuntos pessoais, permanece discretamente inserida a coluna "Once Seen". Como traduzi-la para o português? Prefiro "Vi Uma Vez". Não se trata da reunião de pequenos anúncios de pessoas que viram OVNIs ou armas de destruição de massa. O que ali acontece é a última tentativa de reencontrar alguém que foi percebido num lance de dados do acaso. Leio o minúsculo apelo de desespero: "Aeroporto Helsinque. 15 agosto bem cedo vôo para Londres (via Estocolmo). Você rapaz bonito dormindo/sentado perto de garota com cabelo longo marrom." Segue o e-mail da moça, que parece chamar-se Mila. Um moço escreve para outra moça: "Espetáculo besteirol 19:30h 4 de setembro. Você, sentada na L16, eu, garoto perto de você. Ambos rimos muito até não agüentar... responda se deseja ficar em contato." As pessoas que escrevem para a coluna quase nunca ultrapassam três linhas, e quase sempre viram alguém numa viagem de metrô. A casualidade e o ritmo impessoal da proximidade nos vagões produzem a sensação de que, lá dentro, será possível encontrar o verdadeiro amor. Faz-se o chamado: "Linha Piccadilly direção Leste 5 setembro cerca de 22h: Garoto louro de óculos, camiseta com slogan, short cáqui. Eu: morena camiseta preta jeans. Você saltou em Green Park. Sorrimos um para o outro, você disse tchau. Seria bom falar de novo."

Os anúncios são aparições tumultuadas, muito parecidas com as dos comediantes que, nos filmes mudos, invadem os jantares formais com correrias e tombos. A pontuação das frases reflete o desespero de alcançar de novo o outro, e produz um ritmo ofegante à busca. E toda semana é assim, incessantemente: pequenas garrafas de náufrago se encontram naquele ponto da revista, e ali ficam flutuando, até que sejam recolhidas pela pessoa certa.

Talvez, quem sabe, a pessoa errada também possa cumprir um papel. Pois não existe seção que confirme se o apelo foi respondido ou não. Numa época em que encontramos tudo na internet, incluindo pessoas agrupadas em comunidades virtuais, é fascinante a existência de uma seção dedicada ao encontro natural, casual, verdadeiro, efêmero, ocorrido uma só vez. Londres também abre espaço para um gesto radicalmente romântico. Como obcecado voyeur, espero a próxima edição da Time Out para saber quem viu quem uma única vez. E fazer mentalmente a pergunta narcisista: ninguém me viu?

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