O BOCEJO CONTAGIA
MAIS DO QUE O RISO


Fabrício Carpinejar


As pessoas que fingem trabalhar sempre dão mais certo do que aquelas que trabalham duro. As que trabalham duro, não necessitam ficar fingindo e usam a descontração para respirar e alegrar a si para continuar trabalhando duro. As que fingem, ficam sérias no computador ou no telefone, moscas mortas, pouco falam, não atrapalham a paisagem nem incomodam a sopa. Não chamam atenção, o que impede de serem demitidas. As que trabalham pesado, puxam a bola para perto, se livram da marcação, discordam e terminam cobradas mais do que as outras. Os departamentos de recursos humanos costumam gritar que buscam profissionais com liderança, autonomia e iniciativa. Pregam isso, mas valorizam o oposto: a mosca morta. É estranho pensar que o ócio criativo funcione apenas na diretoria - e olhe lá! Há empresas que proíbem até qualquer chegada de e-mail pessoal no trabalho, como se fosse possível separar a intimidade de quem presta serviços 8 horas por dia (mais 2 horas para chegar ao expediente, mais 8 horas de sono, mais 2 horas para comer: meu Deus, quanta ventura, sobram 4 horas para se divertir). A intimidade do cara é pública. Imagine a situação: "não posso responder essa mensagem, porque eu não sou uma pessoa agora, sou um funcionário". O mesmo acontece com telefonemas e visitas. Se o filho está doente, por favor, ligue quando ele melhorar. Claro, os filhos apenas têm o direito de adoecer no final do expediente e os empregados no período de férias. Todas as empresas se orgulham de humanização, criaram prêmios para tudo. Vejo o contrário. Responsabilidade social acontece apenas fora do prédio. É complicado não enfartar antes dos 50. Qualquer um pode se matar de êxitos, fazer grandes resultados, aumentar a produtividade da marca, realizar o que antes não tinha sido efetuado, que será fatalmente esquecido. No trabalho, a memória dos feitos dura quinze minutos. Ou seja, o funcionário é capaz de desfrutar de um passado de 15 minutos (aproveite!) e de um futuro sombrio. Em seguida, voltará a ser um completo anônimo, um desconhecido, que ainda terá que provar por que está ali e não na fila do seguro-desemprego. O tédio é a hierarquia do bocejo.

Carpinejar é autor de As Solas do Sol (Bertrand Brasil, 1998), Um Terno de Pássaros ao Sul (Escrituras Editora, 2000), Terceira Sede (Escrituras, 2001) e Biografia de uma árvore (Escrituras, 2002). Recebeu vários prêmios como Olavo Bilac/2003, da Academia Brasileira de Letras; Cecília Meireles 2002, da União Brasileira de Escritores (UBE); Marengo D'Oro, de Gênova (Itália); duas vezes o Açorianos de Literatura, edições 2001 e 2002; Destaque Literário - Júri Oficial como melhor livro de poesia da 46ª Feira do Livro de Porto Alegre (RS), e Fernando Pessoa, da União Brasileira de Escritores/RJ, em 2000. Site: www.carpinejar.com.br

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