Decifra-me ou te devoro...

Assim dizia a esfinge mitológica em Édipo Rei, de Sófocles, propondo a todos que passavam o quebra-cabeça mais famoso da história, conhecido como o enigma da esfinge:

Que criatura pela manhã tem quatro pés, ao meio-dia tem dois, e à tarde tem três?

Na sequência ela estrangulava e devorava o pobre passante que se mostrava incapaz de desvendar o enigma. Daí a origem do nome esfinge, que deriva do grego sphingo, que quer dizer estrangular.

Édipo resolveu o quebra-cabeça: O animal é o homem: engatinha quando bebê, anda sobre dois pés na idade adulta, e usa uma bengala quando é ancião.

Furiosa com tal resposta, a esfinge teria cometido suicídio, atirando-se em um precipício. Versão alternativa diz que ela devorou a si mesma.

Lembrei-me dessa história diante da avalanche de notícias sobre a morte de Michael Jackson.

Não é para menos. A carreira do astro pop é uma exuberância de números, recordes excentricidades e escândalos. Pelos menos 40 anos na mídia! Se considerarmos que morreu aos 50, é mesmo um fenômeno.

Comparo a figura do astro americano à história de um outro negro famoso, o nosso Pelé. Algum tempo atrás, numa entrevista, um repórter perguntava porque o astro do futebol se referia a si mesmo sempre na terceira pessoa, como se “o Pelé” fosse uma entidade, e o Edson Arantes do Nascimento, outra.

Pelé respondeu, primeiro com um sorriso. E completou: “faço isso para sobreviver. O mito, Pelé, alcançou tal fama e poder que corria o risco de engolir, devorar o Edson. Se o Edson queria ter vida privada, um cotidiano minimamente normal, não poderia se confundir com o Pelé, teria que guardar distância dele. A lenda, o mito, a fama, pertencem a Pelé. O Edson é um cidadão quase comum...”.

Sábio o nosso Edson. Decifrou o enigma, o que levou o garoto pobre de Três Corações ao título de atleta do século. Ganhou todos os títulos que poderia ganhar, deixando a imagem fantástica de um jogador de futebol que já fazia arte, antes que câmeras múltiplas registrassem, por todos os ângulos, seus dribles mágicos, suas jogadas e gols inesquecíveis.

Já pensou se Pelé jogasse hoje? Teriam que inventar palavras que fossem além de fenômeno...

Michael Jackson não teve a mesma sorte ou capacidade. Nascido também negro e pobre, num país e num tempo racistas, desde a infância viu-se jogado às feras do show businnes, levado, segundo consta, pelas mãos de um pai de poucos escrúpulos. Com os irmãos, no grupo Jackson Five, conheceu o sucesso e a glória. A carreira solo foi consequência natural do seu talento.

A solidão também.

Michael não decifrou seu próprio enigma e foi sendo, aos poucos, devorado. O brilho da sua arte compensava, ofuscava seus problemas pessoais. Movimentava milhões de dólares no bilionário mundo da música pop. Se não inventou o vídeoclip, Michael Jackson o colocou na categoria de espetáculo definitivo. Dois momentos ficaram, como registro indiscutível do seu talento: a coreografia de Triller e a montagem feita com imagens de uma de suas turnês sobre a cantata Carmina Burana. Fantásticos!

Mas, aos poucos, o processo autofágico de Michael Jackson foi ficando visível em seu próprio corpo. Começou por devorar o seu rosto, estendeu-se pela pele, os cabelos, digeriu a sua cor. Vitiligo, acidente, queimadura, erro médico, muitas hipóteses e especulações. Pouco importa. O que impressiona é comparar a foto do astro, aos onze anos, no início da carreira, e a imagem grotesca dos últimos tempos.

Acuado, cada vez mais estranho e amalucado, isolou-se numa mansão que chamou de “Never Land”, a Terra do Nunca, onde, qual moderno Peter Pan, recusava-se a crescer ou, mais provavelmente, buscava resgatar a criança que nunca pode ser.

Vieram os escândalos, as acusações, os processos. Casou-se, curiosamente, com a filha de um outro “devorado”, Priscila Presley, filha de Elvis. Descasou-se, casou-se novamente, teve filhos. O que nunca teve foi paz e sossego.

Na outra ponta da notícia liderou campanhas humanitárias e gravou, com os melhores artistas do mundo, o maior sucesso entre as músicas chamadas beneficentes: “We are the world”, em favor dos famintos da África.

Paradoxalmente, Michael Jackson, que alimentou a fantasia de tantos, morreu de fome de si mesmo, depois de se devorar.  Ainda engatinhando, morreu às duas da tarde da vida, tentando caminhar sobre dois pés. Sua arte fica. O enigma também.

Diante dele, duas certezas: primeira; não se devorou sozinho. Todos nós, ávidos e vorazes, tiramos nossa casquinha, cortamos nossa fatia de curiosidade mórbida.

Segundo; não existe sucesso a qualquer custo. O custo, às vezes, pode ser alto demais. Pode custar não apenas a morte. Pode cobrar o preço de toda uma vida.

 

Eduardo Machado, educador e escritor.
 edujmm@terra.com.br