O TRIÂNGULO
DE FALLUJAH

(Para Casa)


Antonio Barreto

Sandra Moreira
 

Para Júlio "Lucca" Monteiro Martins, essa guerra na nuca...

Bo e Trevor estão em apuros.
Encurralados nas montanhas de Arbil, tentam uma saída para seus comandos de mercenários gurgas. Penso na Turquia. Em dois segundos passo os óculos sobre o link Mapa do Iraque. De repente, clic, uma caverna. Balas zunindo sobre nossas cabeças. Minha orelha já sangra. A cabeça também. Meu nariz idem. Clic. Outra caverna. Reúno o grupo e escapo por Tall Afar. Contabilizo baixas: nove soldados. Não me desespero. Sempre haverá saídas, sempre.
Gurgas são mercenários bem treinados. Não se rendem, antes, se matam. Me consolo com isso. Não se renderam. Se mataram. Puxaram os pinos de suas próprias granadas. Puf! E lá se foram.
Meus heróis de verdade, Bo e Trevor, sempre voltam da linha de combate ilesos. São "imorríveis", diria o meu pai.
Estavam meio cansados, pude ver.
Meus dedos não. Eu precisava conquistar Mosul até o meio dia no máximo, antes que
meu pai chegasse.
Acionei novamente a tecla CTRL + ENTER e continuei a carnificina com tanques velozes, M-60. Enviei quatro colunas de blindados. Cercaram a cidade. Fizeram o serviço mais pesado e, quando tudo ficou em silêncio total (apenas aquela fumacinha rala se diluindo na tela, no meio das tamareiras) deixei a limpeza final para Bo Crow, o texano, e Jim Trevor, o estripador.
Bo, veterano de Cabul, vomitou fogo da metralhadora.
Treze xiitas tombaram à beira do Rio Tigre.
Trevor fez o mesmo, mas acho que não devia ter atingido os camelos. Camelos não vomitam balas. Matou quatro civis – talvez aliados – e deixou o resto da caravana ferida. Oito bichos agonizantes e essas mulheres estranhas, vestidas de preto, como as que ficam chorando na TV o tempo todo quando o assunto é guerra no Oriente Médio. É uma parte do jogo que me surpreende ainda, concordo. Mas assim não dá! Não sei guerrear com mulheres, pô!
Quando Skip está aqui (meu único amigo) digo pra ele: nessas horas temos que ter precisão cirúrgica. Caso contrário vai tudo pro saco. E a gente acaba matando coisa inocente, sem resistência. O jogo fica meio lerdo.
Ele é especialista em tanques. Eu ainda gatinho com jatos e helicópteros. Sobre helicópteros sou praticamente neófito. De caças-de-combate sei algumas coisas. Já pilotei Mirages, quando pequenininho. De tanques, zero vírgula zero. Sei que tanques são mais fáceis de manobrar do que caças. Mas o Skip não comete um erro. Ganha todas. Com ele não tem "fogo-amigo".
Dias desses, porém, no WAR AFHEGANI - 4, acionou por engano o botão F12. Acabou assassinando meia dúzia de velhos e crianças que pastoreavam ovelhas entre tamareiras, na maior tranqüilidade. Estávamos em Cabul, guerrilha urbana. A tela de repente pulou para Kandahar. Skip varreu tudo: uma mesquita inteira com mais de cem islâmicos descalços, e rezando. Estava com raiva, acho. Skip é foda!
O certo seria a seqüência F10 + pause/break, puxar a mira do canhão com o mouse e disparar com o botão direito. Nesse espaço (e essa é a ordem correta da operação) só aparecem soldados do Taleban nas trincheiras, uns obsoletos fuzis Kalishnikov e uma ou outra bazuca tcheca.
A resistência é fraca. Mas dá pra divertir. Então a gente pode brincar com eles, cercá-los pelos flancos, enviar jatos F-5 em vôo razante, só pra assustar e, se quiser, prendê-los ou torturá-los. Mas não é interessante fazer prisioneiros nesse jogo. Dá muito trabalho vigiá-los no link Campo de Concentração.
De qualquer forma, saldo positivo nessa manhã. Conquistamos a base de Mosul. Agora podemos ir em frente... Os iraquiis estão no papo.
A campainha toca. Deve ser o Skip trazendo um joystick sobressalente e a versão pirata do WORMS IN FALLUJAH. Vamos recomeçar o ataque ao Iraque, agora com um helicóptero e um tanque.

- E aí, Jack? Tudo limpo?
- Limpeza, broder. Serviço completo.
- Treinou com o M-60?
- Até Arbil não há pedra sobre pedra. Ficaram umas ruínas históricas... Nínive,
Samarrah, Ur, Babilônia, se não me engano. Tivemos alguma resistência no "triângulo
sunita", perto de Ramadi. Mas o pior está mesmo em Fallujah...
- Tudo bem. Isso vai servir pra alguma coisa... Há baterias antiaéreas por lá?

- Não. Só fuzis e lança-granadas.
- Efetivos militares...
- Uns rebeldes religiosos e uns terroristas de Bin Laden, meio desorientados. Parece que estão  sem comando e sem contato... mas com mochilas nas costas.
- Bom sinal. Não devem ter bazucas.
- Podem ter outras coisas... prepare-se para a surpresa!

- Nada mais me surpreende, Jack. Desembucha logo!
- Homens-bomba, cara! Uns malucos! Já chequei.
- Homens-bomba? Tudo bem. Com um helicóptero vai ser
mole.
- Você já jogou esse?
- Ainda não. Mas meu "pentágono" particular informou que é
limpeza. O Maurício quem conseguiu, mano. É pirata, como te falei, mas melhor que o nosso...
- Valeu! Passa o antivírus.

Skip senta do meu lado e vamos iniciando o "para casa".
Insere o programa. Download...
Enquanto não matamos ninguém, nesse intervalo, acessamos umas bucetas virgens
do arquivo Sexy Dreams... Batemos punheta. Exaustos e felizes, vamos à luta. Skip
fala, com o papel higiênico na mão:

- Good morning, Fallujah!
Eu detono:
- Alahu-akbar!!!

***

A tela se abre:
FALLUJAH 1 – Armas: 1 tanque M-80 do Exército Americano, lagartas de tungstênio, torre completa com giro de 360 graus, etc. (pulamos essa parte); 1 helicóptero Apache III, rotores múltiplos, impulsão a jato, etc. (pulamos essa parte, queremos surpresas também nas especificações técnicas). Dois jogadores com o mesmo objetivo. Posição inicial de acesso ao terreno por terra e ar. Contato e identificação do inimigo. Batalhas sucessivas (esse o ponto: agora queremos sangue, muito sangue...)
Objetivos: 1) cercar e eliminar brigadas de resistência. 2) destruir Fallujah, cidade do "triângulo sunita", foco de resistência à Terceira Invasão das Forças Aliadas.
Informações complementares: Fallujah: bunker de Moqtaba al Sadr, chefe religioso sunita e Abu Musab al Zarqawi, comandante do braço iraquiano de Bin Laden na região... (totalmente dispensável).
Pulamos várias telas. Rolamos a barra.
Skip acessa rapidamente o link Ponto de Batalha. E com os joysticks em punho, armados de coragem, começamos.
Ele no tanque. Eu no helicóptero. Pra mim, um enigma. Sei apenas que voa bem rente ao chão, decola na vertigem e tem foguetes Matra, desses usados para ar-ar, nas batalhas com o Mirage, uma máquina que já domino desde pequenininho, falei? O Apache, garante Skip, é um beija-flor de alta performance.
Missão 1: localizar o inimigo e deixar meu amigo fazer o resto do serviço. Missão 2: enquanto ele opera lá embaixo, no deserto, com suas metralhadoras de 630 disparos/pm e um canhão de 150 mm, tenho que dar cobertura no deserto e na cidade. Avisar das brigadas rebeldes, me esconder entre tamareiras, baixar, pairar, atirar e, às vezes, fugir entre os prédios baixos, que mais parecem favelas do Brasil. Até aí tudo bem. Eis, porém, o principal: não deixar que homens-bomba se aproximem do seu tanque. Tenho dois canhões Aden-30mm, quatro metralhadoras Westinghouse e oito mísseis Sidewinder ar-terra debaixo da carlinga. Nas pás do rotor, bem na ponta, uma novidade: cinco metrancas giratórias. Dá pra espalhar fogo pra todo lado, enquanto as hélices estiverem funcionando. Apesar disso (já vi na tela Características do inimigo), sinto um frio na barriga: posso encontrar Migs pela frente. Vai ser uma puta dor-de-cabeça! Vamos ver...
Skip fala:
- Pra mim, pilotar tanque é que nem pedalar bicicleta! Uau! Tudo bem por aí?
Confiro os mapas e vejo o relógio: 11:50. Temos dez minutos pra fazer o serviço,
antes do meu pai chegar...
- Vamos lá, Skip!
- Boa sorte, Jack.
Manhã no paralelo 36º, longitude 43º a leste de Greenwich. Programo o helicóptero.
Skip já está no deserto, explorando o terreno.
Ligo os rotores, as pás começam a girar. Subo e vou perfazendo, cá de cima, a área
toda. Aciono o detector de minas e descubro umas vinte no caminho do M-80 dele.
Aviso. Vira seu tanque pra direita, atira, esquerda, atira, recebe fogo inimigo e
escapa ileso. Depois, avisto o primeiro grupo de homens-bomba: 50/60 iraquiis
escondidos sob um tell de gipsita, um morro que se abre no deserto e, de repente,
vomita fogo. Skip vai lá e manda ver. Crau! Crau! Urararrarrarrrarrrra!!!
Ganhamos a primeira: 1000 pontos. A tela mostra o que sobra: por enquanto só membros dispersos, despedaçados, pelo deserto à nossa frente. Skip resmunga:
- Se eu tivesse criado isso, colocaria umas hienas aí para o jantar...
Rimos e seguimos em frente. Começam a aparecer uns poços de petróleo. Arrepio. "Skip vai destruí-los", penso. Esse cara é maluco. Não dá outra. Bam-bam! Faz tudo virar pó.
- Uuuuuupiiiieeeee!
- Quanto tempo ainda temos?
- Sete minutos...é muito tempo. Vai dar, você vai ver.
- E os Migs?
Nem bem acabo de pronunciar a última consoante do diabo e ele aparece. Faz um "esse" invertido a estibordo, tentando me colocar de frente para o sol. Percebo a manobra e giro para o outro lado. Dou potência máxima nas turbinas, alinho, enflecho as pás, estabilizo rotores e me arremeto na horizontal. O Mig dispára sua primeira rajada. Escapo. Skip já resmunga pelo transponder:
- Enquanto você cuida do Mig, vou testar meus obuses, Jack. Aquelas ruínas são ótimas!
- Não faça isso, Skip! – grito com ele. – São apenas sítios históricos, cara. Isso deve ter no mínimo uns 6 mil anos de existência!
- Qual é a tua, sadik? Pode ter uns iraquiis por lá. Veja como se faz...
O Mig agora sobrevoa minha cabeça. Alinha as asas em 15 graus e, de repente, me abandona. Sobe para quatro mil pés. Não entendo a manobra. Gira para bombordo. Tento fechá-lo, fazer uma barreira com a cauda. Ele é mais rápido. Mergulha e vomita fogo sobre meu helicóptero. Escapo de novo. Pura falta de pontaria. Mas decido acabar com o tayarah. E acabo. Não demorou nada. Pam-pam!

***

(11:59)
Skip está admirando os escombros de Nínive.
- Uaaaaauuu! – grita alucinado.
- Putaquepariu, cara! Você pulverizou tudo. Isso era uma grande parte da história da humanidade, velho? – rosno de novo.
- A humanidade só tem uma história, Jack – ele diz –. Matar, matar e matar...
- Putz! É sanguinário demais. Não precisava assim... Por que você faz isso?
- Meu pai, talvez. Ele diz que as ruínas de hoje podem ser os escombros de amanhã... ou mais ou menos isso. – Faz uma pausa, mira a parede e continua – Numa guerra, broder, não há como ser sanguinário de menos, concorda?
- Você conhece o seu pai?
- Não. Você conhece o seu?
- Não. Acho que não.
- Jack.... – ele agora tenta filosofar – As sinapses do seu cérebro são feitas com o
DNA do teu pai e não com o DNA da tua mãe, sabia? Vê se bota isso na tua placa-mãe, pôrra!
Rio da piada e só respondo "não". Depois penso que tudo é mesmo pó... só tem um jogo aí. Minha placa-mãe nunca vai ser minha própria mãe... – ele continua:
- É por isso, cara, que eu faço tudo virar átomo! Faço virar molécula! Entendeu?
E despeja mais obuses sobre o oleoduto de Kirkuk, logo à frente.
As lagartas de seu tanque tremem, rosnam no meu quarto. Chamas, chamas e mais chamas... Skip é doido. Suspende o canhão. Puxa a mira telescópica, descobre homens-bomba, aciona metralhadoras, mão esquerda, mão direita, dedos que rasgam nuvens, atinge Migs no céu, mergulha nas cavernas, mata tudo o que vê pela frente.
Queria ser assim. Mas não consigo.
Penso no meu pai de novo.
Algo está errado com ele.
Resolvo voltar. Um segundo. Me distraio.
Um Mig me atinge. Estou morto.

***

(12:00 – relógio parado na parede do meu quarto)
A chave gira na porta da sala.
- Putz, meu pai chegou, Skip! Desliga tudo! Rápido!
- Tudo bem, broder, mas onde eu coloco nossas tralhas?
- Esconde no armário, pôxa! E vai pegar os livros, antes que ele invada o quarto.
Meu pai pergunta:
- E aí, meninos, ainda fazendo o "para casa"?
- Exaustos, paizão. Hoje tá meio complicado. Pesquisa sobre a guerra: xiitas, sunitas,
curdos...
Skip resume:
- Antiga Mesopotâmia, atual Iraque seu Olavo...
- Uma guerra arranjada... Uma carnificina de civis, um horror! Foi nesse lugar que a
civilização começou... – pai diz, meio pensativo. E eu repito a mesma história:
- A gente já sabe, pai. O Tigre, o Eufrates, né?
- Nínive, Babilônia, Samarrah, Ur, Heet, Kerbala, Najaf, Nassyriah... cidades bíblicas, ruínas históricas... Estive lá. Guerra do Irã, Guerra do Golfo...
- Você já falou, pai.
- Trabalhava para uma empresa que construía pontes, ferrovias e uma rodovia com mais de quinhentos quilômetros. Dez anos da minha vida ficaram naquele deserto. Eu era o Chefe de Segurança do Acampamento. Dez anos de trabalho por água abaixo...
- Você já falou, pai.
- E tudo cirurgicamente bem destruído, em dez minutos, pelos Aliados...
- É pai? Isso eu não sabia. Em dez minutos? Como assim?
- Vocês ainda não têm idade pra isso. É algo muito violento. Um atentado contra a
humanidade...
- Conta, pai.
- Prometo que um dia eu conto. Por ora, vamos almoçar...
De repente ele pergunta pro Skip:
- Seu pai vai bem? O Bedê anda meio sumido, pô!

***

Fecha a porta.
Skip morde a ponta do lápis. Fala:
- Desconfio que eles não estão se dando bem no trabalho, cara, meu pai e o seu...
Limpo meus óculos numa ponta da camiseta.
Skip cochicha:
- Fique tranqüilo, Jack. Amanhã a gente volta para Fallujah... ainda não foi dessa vez...
- Sempre há uma esperança, não é?
- Você vai aprender a jogar.
Não me desespero. Sempre há uma saída. Skip me leva até à mesa, em minha
cadeira-de-rodas. Trêmulo, tento espetar o primeiro bife. Não consigo.
Meu pai está fechado no banheiro, falando no celular:
- Alô? Sete meia cinco? Qual sua senha? Positivo. Tudo bem. Bedê, algum
problema? Positivo. Pode apagar o cara. Não apagou ainda? Pôrra, cara, tu é um
bosta mesmo, sabia? Abafa o outro também, caralho!
Um suspiro profundo.
- Estamos numa guerra, lembra?
Faz outra pausa. Mexe no armário. Trec-trec. Continua:
- Se ele der com a língua nos dentes, estamos simplesmente fodidos, sacou? Fodidos
de arara, até à última geração, pôrra! Guarde isso. O esquadrão não pode aparecer
na imprensa, entendeu sua ameba de porco?
Um arroto, um peido. Ele continua:
- Outro presunto? Não defumaram ainda? Faz o seguinte, seu merda. Some com os
três logo de uma vez, falou?
E aí entra o trec-tererererererc-trec. Téc. A bala na agulha? Alguma coisa girando num
tambor? Ele diz:
- Isso, 45 ou 12, coração, pulmão e braços, pra parecer acerto de contas, entendeu?
Vai indo você aprende a jogar... E não esquece da palha-de-aço nas digitais,
positivo? Bem escovado, até sangrar. Ou melhor, corta as mãos. Isso! Corta, enfia no porta-malas e bota fogo na carcaça toda, sacou? Positivo. Manda desovar no lugar de sempre. E vê se não me amola mais, porra!
Um suspiro no ar. Um sopro. Ouço:
- Almoçando? Não, já almocei. Tou é conferindo o "para casa" dos meninos, cara!
Putaquepariu! Essa vida de pai separado é uma guerra, né? Mãe faz falta...
Lembro de minha mãe. Pai continua:
- O trabalho?
Trec-terec-tec... outro suspiro dele.
- Mesopotâmia... pura coincidência!
Última frase:
- Você também esteve lá, não se esqueça disso. A gente se fala depois...
Bam-bam. A boca aberta dele.
Skip invade meu mapa:
- Não falei, broder? Perto disso, Fallujah é só uma bela manhã de sol... Vê se põe isso na sua cabeça, porra!
Não sei por que faço, não sei por que giro, não sei... Giro em minha cadeira-de rodas. O tambor trec-terec-trec-trec... pára. O globo terrestre sobe pra cima do meu pescoço. Está na cabeça agora. Será meu cérebro? Cérebro? O dedo no dedo, o clic no osso. Disparo? Há alguma coisa lá dentro da minha placa-mãe. Percebo. Deve ser o que eu devia ter feito há mais tempo pra me conhecer direito. Ou seja lá o que isso não seja. Sempre há uma saída, eu sei. É o jogo do deserto ou uma roleta russa? Não sei.
É melhor despachar para o inferno, logo de uma vez, essa carne crua.

Antonio Barreto é autor do romance A Guerra dos Parafusos, saga sobre os trabalhadores brasileiros no Iraque, na década de 80, que será relançado pela Geração Editorial em 2005. Esse conto faz parte de seu próximo livro  A Idade do Inferno. antonioba@uol.com.br

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