Cuidado, a sua foto íntima pode estar amanhã na internet

Alessandro Motta Buzas

 Muito cuidado com as fotografias que você tira na privacidade.
Elas podem aparecer amanhã na internet para seu constrangimento. Analisando
alguns casos de invasão de privacidade e uso indevido de imagem, o repórter foi conferir os locais onde elas são feitas e saber sobre o roubo de imagem e como os laboratórios se protegem para dar segurança ao cliente.
Pesquisando três empresas conhecidas no mercado fotográfico, o repórter
descobriu que algumas imagens são desviadas para uso indevido em sites virtuais.

Partindo de um depoimento exclusivo de uma aluna da UniverCidade, no Rio de Janeiro, que teve uma de suas fotografias extraviada de um filme com cenas íntimas, foi constatado que o profissional que fica por trás das máquinas reveladoras detém a chance de copiar qualquer imagem. Pedindo para não ter o nome divulgado, a aluna do sétimo período de Jornalismo, de 25 anos, informou que uma fotografia foi roubada de um filme seu. Na loja, uma franquia bem conhecida na cidade, a aluna da UniverCidade pediu para fazerem a revelação por um sistema rápido. O filme era de belas paisagens, mas, no meio delas estava a apimentada cena íntima de um casal, não devolvida para a cliente. Ela, na entrega do envelope, conferiu as imagens uma a uma, mas aquela, a mais esperada, tinha sido furtada pelo funcionário que imprime as fotografias.

Na hora da entrega, a aluna lembra que um dos funcionários, o responsável pela produção das imagens, demorou além da conta para a devolução do envelope. Percebendo uma movimentação estranha entre aquele impressor e um vendedor, a cliente teve a nítida certeza de que uma das fotos tinha sido retirada do pacote que seria entregue. Reclamando depois de conferir as imagens, a aluna perguntou o porquê da ausência da foto. A desculpa dada pelo vendedor foi a de que, na reposição do papel fotográfico, quando ele é trocado, pode passar uma imagem em branco sem que o funcionário perceba.

Achando muito estranho, ela pediu para que loja refizesse a fotografia faltante. A atitude da gerência da loja foi correta em refazer a foto. Mas quando se preparava para deixar a loja, a cliente percebeu que os funcionários foram para trás da máquina, em cochichos, atitude suspeita para um atendente de balcão.

As atitudes destes funcionários são condenadas pelas redes de fotografia, como falta de educação ou falha de ética profissional. Este erro grave é motivo de demissão por justa causa assim como é passível de processo jurídico aquele que se apropria de fotos de clientes. Este é o comentário de uma gerente de loja do ramo e reflete o sistema falho de segurança nesse setor.

A norma principal de qualquer reveladora de fotografia é a proteção e resguardo das imagens reveladas no estabelecimento. Outra prática correta determinada por uma cadeia concorrente é a segurança e o zelo para proteção das fotos. Nesta rede, um único responsável fica destacado para assegurar a integridade das imagens. No mini-lab da loja, somente opera uma única pessoa, forma correta de oferecer sigilo e confiança aos clientes.

Toda loja reveladora de fotografia tem a obrigação de proteger a imagem do cliente ali depositada e não o expor a constrangimento algum. O profissional que trabalha no mini-lab, operando a copiadora de fotografas, tem que ser correto e discreto com relação às fotos que estão aos seus cuidados. O poder de liberdade para realizar o trabalho e o fato de operar entre quatro paredes sem a fiscalização do proprietário da loja ou de um superior hierárquico, facilitam a chance de copiar as imagens. Se este profissional for jovem (ou em outras palavras, sem muita responsabilidade) e se não tiver bom caráter, seguramente ele se apropriará de fotos para uso indevido.

Todos os dias, alguns milhões de fotografias são tiradas em uma cidade como o Rio de Janeiro. As pessoas possuem por natureza a vaidade - ou que outro nome tenha - de serem clicadas em momentos diversos, mesmo nos mais íntimos. Homens e mulheres nus em pêlo, cenas engraçadas, acidentes automobilísticos , bichos de estimação, crianças, paisagens exóticas, tudo - por mais estranho que pareça - pertence aos seus autores ou proprietários.

Recentemente, um episódio ficou famoso na internet : um casal jovem da zona sul carioca fotografou-se pelo sistema automático em uma cena erótica onde a moça realizava uma felação no membro do namorado. Esta foto ficou com o rapaz. Alguns meses depois, o casal brigou. Uma amigo do rapaz, de posse desta foto, lançou-a na internet. Um aluno da unidade da Puc, onde a moça estudava, reconheceu-a e, irresponsavelmente, jogou-a para os protetores de

tela de toda a rede da faculdade. Resumo do caso : a garota está processando o ex-namorado na justiça. A justificativa do advogado de defesa do rapaz é a de que a culpa cabe ao laboratório que revelou a foto. Uma grande dúvida permanece no ar.

A sociedade tem que saber que o poder que um funcionário de laboratório tem nas mãos é avassalador. Basta um simples aperto de botão para copiar uma foto a que somente seu proprietário teria direito. A prática de crime de invasão se privacidade e o roubo indevido de imagem levam à cadeia.

Entrevistando três laboratoristas de duas grande redes de fotografia no Rio, o repórter pôde constatar três opiniões diferentes sobre a função exercida. Os mesmos pediram sigilo sobre seus nomes . A primeira entrevista foi realizada com uma impressora de 35 anos de idade, sete em mini-lab. Segundo ela, "pode acontecer, sim, roubo de imagem dentro do local de trabalho. A facilidade existe e o simples poder de liberdade para trabalhar sozinho aumenta a intenção. A ocasião faz o ladrão". A impressora concorda que se não houver uma boa fiscalização com relação às fotografias, o desaparecimento é inevitável. Ela acha que os laboratórios de revelação

têm que ficar trancados e não se permitir a entrada de estranhos. O profissional de mini-lab tem que ser bem treinado e bem escolhido com o maior critério de seleção pois é este funcionário que irá manusear as fotos de maior intimidade dos clientes.

Um segundo profissional , rapaz de 25 anos, há quatro anos operando como impressor, revelou que "às vezes" copia algumas fotos de mulheres nuas. Para ele, as cópias são para a sua "coleção pessoal". O rapaz contou, candidamente, que possui um acervo de 200 fotografias de intimidades variadas. Ele conta que se diverte ao mostrar para os amigos essas fotos onde mulheres nuas se expõem de formas variadas. Ele acha que isso não afeta pessoalmente as pessoas em questão mas concorda que o uso da internet para divulgar, sem autorização, fotografias alheias - principalmente em poses comprometedoras - é um crime e que ele nunca teria a coragem de fazer isso, prejudicando alguém. Ele sabe que existem centenas de casos de profissionais que colocam fotos sob sua responsabilidade na internet mas que pessoalmente nunca viu alguém realizá-lo.

O terceiro impressor tem 37 anos, casado ,com 12 anos dedicados ao laboratório de impressão. Ele já participou de um curso destinado a impressores, onde pôde fazer amizade com alguns colegas de profissão. Durante esse curso, conheceu um impressor que vendia inocentes imagens de paisagens para um dono de banca de jornal. Como na época o laboratório onde trabalhava tinha um convênio com uma agência de publicidade, sempre apareciam trabalhos em belíssimos locais, que ele reproduzia para comercializar no paralelo. Durante um Congresso, ficou sabendo que outro colega seu enviava fotos pornográficas de clientes da loja onde trabalhava para sites de bate-papo na internet. Ele clonava as fotos e as escaneava em sua casa . Daí para a internet era apenas uma questão de apertar um botão. Ou de pura falta de consciência profissional.

Com base nestes depoimentos, podemos nos perguntar se realmente estamos protegidos dos seqüestradores de fotografias. Na cidade do Rio de Janeiro, pólo do turismo mundial, existem atualmente dezenas de estabelecimentos de revelação. O calor da cidade aumenta a libido ou simplesmente incentiva fotos com pouca roupa. Até aí, tudo bem. Mas todo o cuidado é pouco na hora de revelar suas poses, discretas ou não. Procure ter certeza de que a loja de revelação é de sua confiança para não deparar amanhã, na internet, com uma de suas fotos íntimas exibidas para milhões de pessoas.

 

alessandro1.jpg (10229 bytes) Alessandro Motta Buzas nasceu em São Paulo . Sua família mudou-se, depois, para Belo Horizonte. Formou-se em jornalismo no Rio, onde reside atualmente. A Tanto exibe outro trabalho jornalístico seu, "Confeitaria Colombo : 100 anos de charme e bom atendimento no centro do Rio".

 

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