Elle et Lui

Alessandro Motta Buzas

julio saensTodo final de ano a procura de empregos temporários é a melhor forma de sair das dívidas e poder fazer um Réveillon mais saboroso. Mas na minha história, não pude ter este êxito como experiência na profissão de vendedor provisório de roupas em uma tradicional butique (très chic) com nome de grife francesa.
Um telefonema dizendo para entrar em contato com um gerente de uma loja no Shopping mais tradicional na zona sul carioca foi o início de um caso inédito que ocorreu durante uma curta temporada como vendedor. Eu já tinha trabalhado no comércio fotográfico, gerenciando 12 funcionários e mais centenas de clientes diários durante dois anos no centro do Rio Antigo. Foi uma experiência gratificante e que serviu de aprendizado para lidar com as inúmeras pessoas e suas necessidades.
Encaminhei meus dados para o gerente que logo, analisando, disse-me que no Natal as vagas são limitadas para aqueles que já possuem habilidade com roupas e me pediu um currículo para encaminhar para a matriz. Na minha experiência como repórter-fotográfico em um jornal de circulação nacional, tendo enfrentado torcedores fanáticos em pé de guerra com jogadores, enterro de traficantes com direito a vaias de "mata este mandado do inferno", "dê um tiro nele", enfim, para quem estava lidando com problemas maiores, ser um vendedor de roupa masculina seria "roubar doce de criança" ou "mamão com açúcar". Engano meu.
Novamente recebi um outro telefonema, desta vez já encaminhando-me para uma entrevista em uma loja da rede que fica no bairro Leblon, num belíssimo ponto que serve de passarela para a alta sociedade do Rio e para gravações de novelas. Era uma loja de rua que tem mostruários femininos e masculinos e onde circulam famosos e pessoas com grande poder financeiro. Tive uma boa impressão quando me aproximava para a entrevista. Foram poucos minutos de conversa com uma loura de seus cinqüenta e poucos anos e uma educação inglesa. Muito objetiva, a senhora explicou-me os procedimentos da loja e suas vantagens. O que me agradou mais foi o alto valor da comissão, que solucionaria meus problemas financeiros.Quanto ao funcionamento da loja, homens atenderiam homens enquanto as funcionárias, por seu turno, somente atenderiam as mulheres.
Um teste-surpresa, durante o prazo temporário de um mês, me daria a chance de abocanhar o emprego e o salário. Este teste seria feito de forma classificatória ou desclassificatória para a função de vendedor na loja.
Com toda aquela ansiedade e a dúvida de como seria o teste para ingressar na loja de alta comissão , fui à batalha em meu primeiro dia de trabalho. Fui destacado para uma função muito estranha logo de cara, a de executar a tarefa de um funcionário de férias, que diariamente abria e fechava as vitrines da loja. Eram pesadíssimas nove chapas de aço, pesando 30 quilos cada uma. Serviam para vedar as vitrines do mostruário. Cada chapa era fixada em quatro barras de ferro junto à janela. Havia, para complicar, quatro cadeados meio enferrujados que eu teria de abrir e, no fim do expediente, fechar. O problema é que eu tinha acabado de passar por uma cirurgia ortopédica no pulso esquerdo. Eu tinha de usar de truques especiais para não lesar ainda mais o meu pulso fragilizado. Era uma força extra que eu fazia e que, na verdade, não constava no manual do vendedor de uma loja daquele porte.
As férias do encarregado daquele cargo de levantar, baixar e, por fim, carregar as chapas de aço coincidiram, infelizmente, com a minha chegada na loja. Éramos eu e mais um rapaz que nunca chegava no horário de abertura das janelas. Como ele sempre atrasava, a bomba tinha que ser desmontada por minhas mãos, uma delas sacrificada e parafusada com pinos e platinas. O que a gerente não sabia, ou fingia não saber, era que mesmo com dor eu não negava esforço. Depois desta malhação injusta, eu ainda tinha que secar o meu suor, vestir uma roupa esporte fino e trabalhar como um gentleman e não perder a pose. Vários dias se passaram e eu sozinho organizava as placas antes do atrasado colega. Esse companheiro queria mesmo era ficar nas "minhas costas". Eu como burro de carga e ele um perfeito carioca metido a experto.
Durante praticamente todo o mês de experiência, fiquei com aquele encargo, até que um dia a gerente deu uma "bronca" no colega que sempre atrasava. Este, depois da repreensão, passou a chegar juntamente comigo no horário de abertura. Mas continuava sem me ajudar. No fechamento era a mesma coisa.
A gerente estava insatisfeita com as vendas no meio do mês de novembro. Fracas, segundo ela e uma vendedora antipática, comparadas ao ano anterior. Era a deixa para eu saber que a minha comissão não seria tão boa como havia imaginado. Além do mais, a gerente – com seus problemas sexuais mal resolvidos – vivia de mau-humor. Vivia "alfinetando" (já que a loja era de roupas finas...) os funcionários. Argumentava, com uma retórica torta, que eu não estava atingindo a meta estabelecida. Percebi, imediatamente, que aquilo era uma jogada desonesta dela para me pagar menos.
Em um dia ensolarado, e depois de fazer musculação com as chapas de aço, iniciei minha venda com o pé direito:três camisas, duas calças e um par de sapatos. Estes,em falta na loja, tive de procurar nas outras duas lojas da rede. Tive de andar "meio Leblon" para encontrar a cor e o número desejados pelo cliente complicado. Achava que, com isso já tinha defendido as minhas festas de fim-de-ano.
O Dia D: 28 dias de trabalho, glória e desespero para atingir a meta. Numa tarde de sol intenso, eu me preparava para entrar na loja. Vi uma senhora de aproximadamente 70 e poucos anos de idade, acompanhada de uma jovem que vinha atrás. Abri a porta de vidro blindex para que a senhora entrasse. Cumprimentei-a usando a frase adotada pelos vendedores –"boa tarde, posso ajudar a senhora?". Muito sorridente e com um andar capengando, pela idade, a simpática senhora entrou na loja apoiando-se no meu braço. Fixou os olhos nos meus e disse – Toilette. Pensei rápido – ela deve estar querendo ir ao banheiro, que ela chama de toilette . A senhora entrou bem devagar e cumprimentou todos os presentes, chamando-os pelo nome, o que indicava uma velha amizade com todos que estavam no ambiente. A acompanhante, tímida, muda ficou. Virando-se para mim, a velhinha repetiu toilette com a voz trêmula de quem está com vontade urgente de ir ao banheiro. Mineiramente educado, fui conduzindo-a para o lado dos sanitários ou toilettes, conforme o pedido da senhora. Ingenuamente eu imaginava que, logo após sair do banheiro (toilette) ela certamente compraria alguma peça de roupa para um neto ou um sobrinho, sei lá. Qualquer coisa para compensar a minha gentileza.
No caminho para o banheiro, notei que a senhora estava assustada. De repente, como se tivesse engatado uma marcha-ré, gritou com sua vozinha antiga - para onde o senhor está me levando, o que o senhor está fazendo ?! Não é ao banheiro que eu quero ir, senhor, refiro-me às roupas de toilette, roupas de festa! ... Só então percebi que ela estava usando a expressão toilette, uma palavra francesa que para mim – e para milhares de pessoas – estava fora de moda há séculos ou, para usar outra expressão francesa, demodée. Na minha enciclopédia mental e no meu dicionário poliglota não estava a tal toilette como sendo roupa de festa e sim um mictório ou banheiro, sei lá, algo parecido.
Neste momento, ela já estava andando mais espertinha. A tal senhorita que a acompanhava tinha ficado para trás. A velhinha voltou-se para a gerente e, enraivecida, reclamou que eu não tinha experiência para atender a uma senhora fina como ela, levando-a para um local in-fec-to. Eu estava completamente constrangido por ter cometido aquela gafe (mais uma palavra francesa, meu Deus ), A gerente, para não perder a cliente rica, deu-me uma bronca na frente de todos.
Eu sei que, no frigir dos ovos, ou no resumo da Ópera, a senhora ficou uns minutos a sós com a gerente, murmurando e olhando para mim. Logo depois foi embora com sua muda criada. Foi a dica para que todos os atendentes dessem risadas. Levei a bronca sabendo que no fundo eu não tinha sido totalmente culpado no episódio. Aborrecido com a minha confusão , ainda tive de carregar as chapas enquanto o colega era dispensado para ir ao médico. A grande mentira do dia, após a grande gafe.
No dia seguinte, no fim de mais um dia atarefado e de boa vendas, a própria gerente, aproximando-se com um olhar tenso, informou-me que eu não tinha passado no teste e que não tinha o perfil para o cargo de vendedor daquela loja. Disseram-me, depois, que a tal senhora era, nada mais nada menos, que a esposa do proprietário daquela loja e uma brilhante atriz. Conseguira me enganar direitinho. O tal teste tinha sido imposto a mim sem qualquer respeito à minha pessoa. Uma ação arbitrária sem direito a defesa da minha parte. Partindo do princípio de que naquela loja os homens não poderiam atender as mulheres, a gerência tinha sido omissa e compactuado com a mentira.
Conduzido ao escritório da loja para assinar os papéis da demissão, recebi um valor irrisório ao invés de um vultoso, como ingenuamente eu imaginava. Muito chateado, percebi que o período em que trabalhei naquela loja, tinha coincidido com o mês das férias do funcionário encarregado de abrir e fechar aquele teatro de fantoches. Eu havia sido usado pela gerência numa espécie de propaganda enganosa. E, cá pra nós, até hoje eu acho que aquela velhinha era um fantasma do século XIX, amiga de D. João VI. É que ela residia, também fiquei sabendo depois, em Petrópolis.

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reprodução

Nascido em São Paulo, Alessandro Motta Buzas passou a infância
e a juventude em Belo Horizonte. Reside hoje no Rio, onde formou-se
em jornalismo pela Universidade da Cidade. Trabalhou como
repórter-fotográfico free-lance no "Jornal do Brasil" nos anos de 2004 e 2005, cumprindo pautas fotográficas para os cadernos Cidade, Cultura, Esportes e Economia.