Julio Saens

 


sei que meu pensamento geme
e que não tenho sobressaltos epifânicos para presenciar isso
sou tão resíduo que não pratico esperança
antes de mais nada sempre desejei o sepultamento dos deuses
minha boca quer silêncio
luz nestes dias tenebrosos ou mentira que se ofusca lentamente
então rasgo logo a fantasia dialética da sombra
despindo estranho
eis que possuo náufragos
traços de solidão em meu rosto fragmentam a fome
nas enchentes do coração por pouco não mastigaram tudo
várias vezes senti a febre dos espantalhos
nem sequer uma palavra frequentou o lixo
no entanto progredia corrompendo cinza
esta imaginação automática até estancar o pus
porém na janela chorei sangue
tendo nas mãos o límpido orvalho de meus erros
vou me delegando inútil aos pernilongos ...


              cheiro de cola não tem lua
            pro silêncio faltou grandeza


NA GARGANTA DA PALAVRA NADA SE MODIFICA 

             oprimindo o provérbio
        levita na redundância do lixo


                    O SONHO

toda propaganda com gosto de sorvete parece solidão
os olhos do céu já estão inflamados
no asfalto quente transeuntes dilatando
e a estátua não morre


 

     RASTROS DE UM TEMPO SUJO

  a natureza sangra
os bambus continuam bronzeados


 

NA CALAMIDADE DA SOMBRA SÓ
RESTOU UM ADEUS MONÓTONO

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calos da boca em tudo
nestes dias entediantes
peregrinos instintos passeiam em minha memória
um retrato sentimental não lido mistifica este espasmo
salvo morrer existindo
líricos orixás da noite
o opressor seria qualquer tipo de certeza que não gritasse
o ranger dos dentes
dependurava sonhos no teto
e os fracassados se ofereciam em ruas sem destino...

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do livro AS PREGAS DA BOCA de Alain Bisgodofu poeta e artista plástico nascido em 1978, RS,  tem seus textos publicados no Brasil e exterior.
bisgodofu@yahoo.com.br